
5 de junho de 1981 é a data de publicação do boletim que ficou conhecido como o primeiro relato clínico da aids, um documento técnico do centro de vigilância sanitária dos Estados Unidos que não tinha ainda nome para a doença que descrevia. Não existe lei que tenha instituído essa data: o que a sustenta é a própria publicação, hoje completando quatro décadas.
Um boletim de duas páginas
O Morbidity and Mortality Weekly Report, boletim semanal do centro de controle de doenças dos Estados Unidos, publicou em 5 de junho de 1981 o volume 30, número 21, sob o título Pneumocystis Pneumonia — Los Angeles. O texto contava que, entre outubro de 1980 e maio de 1981, cinco homens jovens haviam sido tratados em três hospitais diferentes de Los Angeles, na Califórnia, por uma pneumonia causada pelo Pneumocystis carinii, um fungo que normalmente só adoecia gente com o sistema de defesa já destruído. Dois desses pacientes já tinham morrido. A palavra que nomearia a doença ainda não existia, e o vírus por trás dela só seria isolado em 1983.
In the period October 1980-May 1981, 5 young men, all active homosexuals, were treated for biopsy-confirmed Pneumocystis carinii pneumonia at 3 different hospitals in Los Angeles, California. Two of the patients died. Em português: no período de outubro de 1980 a maio de 1981, cinco homens jovens, todos homossexuais ativos, foram tratados por pneumonia confirmada por biópsia causada por Pneumocystis carinii em três hospitais diferentes de Los Angeles, Califórnia. Dois dos pacientes morreram.
Primeiro relato clínico da aids: o que dizia o texto original
O boletim registrava um detalhe que intrigou os próprios autores: os cinco pacientes não se conheciam entre si.
The patients did not know each other and had no known common contacts or knowledge of sexual partners who had had similar illnesses. Em português: os pacientes não se conheciam e não tinham contatos comuns conhecidos nem sabiam de parceiros sexuais que tivessem tido doença parecida.
A citação bibliográfica desse primeiro relato clínico da aids foi conferida no registro do PubMed, sob o código PMID 6265753, que identifica a publicação como MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 1981 Jun 5;30(21):250-2, de autoria coletiva dos Centers for Disease Control. Há uma pequena divergência de paginação entre a versão em HTML do centro americano, que abre o fascículo na página 1, e o próprio registro do PubMed, que aponta as páginas 250 a 252; esta reportagem adota a paginação do PubMed. A palavra aids ainda não existia naquele texto: ela só seria cunhada depois, quando ficou claro que aquele agrupamento de casos em Los Angeles não era um episódio isolado.
A resposta do Brasil: medicação gratuita pelo SUS
Anos depois da publicação do boletim, o Brasil transformou o enfrentamento da doença em política de Estado. Em 13 de novembro de 1996, o presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei nº 9.313, que obriga o Sistema Único de Saúde a fornecer, de graça, toda a medicação necessária a quem vive com HIV ou tem aids.
Os portadores do HIV e doentes de AIDS receberão, gratuitamente, do Sistema Único de Saúde, toda a medicação necessária a seu tratamento.
A lei foi assinada em Brasília, com referendo de José Carlos Seixas, e publicada no Diário Oficial da União dias depois. Como o Sistema Único de Saúde é nacional, essa garantia vale em Guarapari exatamente como vale em qualquer outra cidade do país.
HIV não é o mesmo que aids
Quatro décadas de preconceito ainda embaralham uma distinção que a saúde pública insiste em repetir: ter o vírus HIV não é a mesma coisa que ter aids, porque muita gente vive anos com o vírus, em tratamento, sem desenvolver a doença. É também comum confundir esta efeméride com o Dia Mundial de Luta contra a Aids, celebrado em 1º de dezembro e sem relação com esta data — uma marca o primeiro relato clínico da aids, a outra é dedicada à mobilização anual contra o preconceito. Neste mesmo 5 de junho, o calendário também reserva o Dia Mundial do Meio Ambiente e a memória de São Bonifácio, bispo e mártir, mas o que este texto registra é o aniversário do boletim que abriu os olhos da medicina para uma epidemia então sem nome.
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