
5 de setembro de 1956 é a data do desfile das dezesseis primeiras unidades do Romi-Isetta pelo centro de São Paulo, marco de partida da indústria automobilística nacional. Antes dele, o Brasil montava carros importados peça por peça; depois dele, passou a fabricar veículos em série dentro do próprio território, com boa parte dos componentes feitos aqui.
O dia em que o Romi-Isetta desfilou em São Paulo
As Indústrias Romi, fabricante de máquinas-ferramenta e tratores sediada em Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, licenciou o projeto da italiana Iso e apresentou o resultado em 5 de setembro de 1956: dezesseis unidades do Romi-Isetta desfilando pelo centro de São Paulo. Era o primeiro automóvel produzido em série dentro do Brasil, um marco que separa a fase de montagem de peças importadas da fase de fabricação nacional propriamente dita.
Até aquele momento, quem queria carro no Brasil dependia de unidades trazidas prontas ou montadas a partir de kits vindos de fora, sem que o país produzisse, de fato, veículos completos em série dentro de suas próprias fábricas. O desfile de setembro de 1956 mudou esse cenário de uma vez, mostrando a autoridades e ao público que era possível fabricar automóveis inteiros em solo nacional, com engenharia própria de montagem, ainda que a partir de um projeto licenciado de fora.
Uma fábrica de máquinas que virou montadora
A Romi não nasceu para fazer carros — vinha de máquinas-ferramenta e tratores, e usou essa base industrial para entrar num setor completamente novo. O carro já saiu de fábrica acima do índice de nacionalização exigido na época, com 72% do peso correspondendo a componentes fabricados no país, número relevante para um momento em que praticamente tudo dependia de importação. Entre 1956 e 1961 foram produzidas cerca de três mil unidades do modelo, volume pequeno para os padrões de hoje, mas suficiente para provar que a fabricação nacional em série era viável.
O aproveitamento de uma fábrica de máquinas-ferramenta para produzir automóveis mostra como a industrialização brasileira daquele período avançava por adaptação: empresas que já dominavam metalurgia e usinagem passavam a aplicar esse conhecimento em produtos novos, sem esperar que uma indústria automobilística surgisse pronta do zero.
O carro que cabia em qualquer vaga
O Romi-Isetta tinha porta única na frente, motor de dois tempos e dimensões que permitiam estacionar em qualquer vaga disponível — um projeto pensado para cidade, não para estrada, bem diferente dos carros grandes que dominavam as ruas na época. A porta única funcionava como a própria frente do veículo, que se abria inteira para o motorista entrar, solução compacta herdada diretamente do projeto original da Iso, na Itália.
O sucesso do lançamento abriu caminho para que, nos anos seguintes, o setor se organizasse em torno do Grupo Executivo da Indústria Automobilística, movimento que atraiu montadoras internacionais para o país e mudou a geografia econômica de boa parte do Sudeste brasileiro. Em poucos anos, o pequeno carro de porta única deixaria de ser novidade isolada para se tornar o primeiro capítulo de uma indústria que se tornaria uma das maiores do país.
Gancho capixaba: setenta anos sem polo automotivo
Vale o contraponto para o leitor capixaba: setenta anos depois do desfile do Romi-Isetta, o Espírito Santo não montou seu próprio polo automotivo, mas segue movendo grande volume de veículos e peças pelo porto de Vitória. A frota de veículos do estado cresce mais rápido do que a malha viária é capaz de acompanhar, o que transforma o trânsito das cidades capixabas em reflexo direto de uma indústria automobilística que nasceu longe daqui, mas que hoje bate na porta de cada motorista que enfrenta congestionamento diário nas ruas do litoral. A distância entre o pequeno carro de porta única de 1956 e o volume de veículos que circula hoje pelas ladeiras e avenidas do estado mede, em boa parte, o próprio tamanho que a indústria automobilística nacional ganhou desde aquele desfile em São Paulo.
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