CEEJA de Linhares: mais de 400 alunas e 41 formaturas

O Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (CEEJA) de Linhares tinha cerca de 732 estudantes ativos, e mais de 400 deles eram mulheres. O número aparece em divulgação da Sedu de novembro de 2024, e é preciso dizer de saída o que ele é e o que não é. Não é chamada de matrícula: o material não abre inscrição, não anuncia vaga, não fixa prazo e não descreve procedimento de entrada. É um retrato do perfil do público da unidade — e um retrato antigo, porque não houve atualização desses dados depois daquela data. Quem procura o CEEJA de Linhares hoje encontra uma escola em funcionamento; o que este texto reconstitui é o quadro que o órgão apresentou naquele momento.

Quem são as mais de 400 mulheres do CEEJA de Linhares

Os dois números da divulgação vêm com marcadores que não convém apagar. O total aparece como cerca de 732 — uma aproximação anunciada sobre um número fechado na unidade, formulação que costuma indicar corte de data, e não contagem redonda. E o recorte feminino aparece como mais de 400: isso é um piso, não uma contagem. O material informa que passa de 400, sem dizer quanto passa. Somar, subtrair ou converter os dois em percentual seria conta do portal, não dado do órgão, e por isso ela não é feita aqui.

Sobre idade, o texto oficial diz uma coisa só: essas estudantes estão majoritariamente na faixa de 20 a 50 anos. É descrição de maioria, não regra de entrada — o material não fixa idade mínima para se matricular na modalidade, não menciona idade máxima e não informa quantas alunas ficam fora dessa faixa. A própria estudante que a divulgação apresenta em detalhe tem 54 anos, ou seja, está acima do intervalo descrito como predominante.

Quanto ao motivo de terem parado de estudar, a lista não fecha. O texto fala em razões diversas e atribui parte delas às responsabilidades domésticas e familiares historicamente cobradas das mulheres, além da jornada dupla de quem trabalha fora e ainda responde pela casa. É uma leitura do próprio órgão, apresentada sem pesquisa, amostra, série histórica ou qualquer levantamento anexado — e nenhuma estudante é citada dizendo que foi esse o seu caso.

O que é o CEEJA — e o que a divulgação não explica sobre o funcionamento

A sigla nomeia um Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos: unidade estadual criada para atender quem ficou sem o certificado do fundamental ou do médio no tempo escolar comum e resolveu buscá-lo mais tarde, já com vida adulta em curso. Sobre a unidade de Linhares em si, o material menciona alfabetização em uma das falas e apresenta uma estudante do Ensino Médio, mas em nenhum momento descreve quais etapas a escola oferta nem como o percurso é organizado.

De rotina, há uma única informação operacional na divulgação inteira: o centro trabalha com flexibilidade de horários, de modo que quem estuda encaixe a aula na própria escala de trabalho. E para por aí. Ficam sem resposta as perguntas que qualquer interessado faria em seguida:

  • se o estudo é presencial, semipresencial ou mistura os dois formatos;
  • se o avanço é por série, por módulo ou por disciplina, e se cada pessoa segue em ritmo próprio;
  • em que dias e faixas de horário a unidade abre;
  • quanto tempo, em média, leva a conclusão de cada etapa;
  • o que conta como estudante ativo na contagem apresentada — se é quem está matriculado, quem frequenta as aulas ou quem entregou atividade dentro de algum período.

A rede estadual mantém mais de um desenho de Educação de Jovens e Adultos, e a diferença entre eles muda a rotina de quem estuda. Esse quadro geral aparece em divulgação bem posterior, de julho de 2025, sobre a campanha da EJA nos terminais da Grande Vitória — outra data, outra ação e outro conjunto de informações, que não descreve o funcionamento da unidade de Linhares.

A estudante de 54 anos — e o que este texto escolheu não publicar

A divulgação apresenta uma única aluna em detalhe: doméstica, de 54 anos, estudante do Ensino Médio, que passou 34 anos fora da sala de aula antes de voltar. Ela vai à unidade nos intervalos que a escala de trabalho abre, e o que a levou de volta, pelo que ela mesma diz, é um plano profissional próprio: cursar enfermagem.

“Sempre sonhei em fazer enfermagem e, com a conclusão dos meus estudos, está cada vez mais perto de transformar esse desejo em realidade”

A frase é de uma estudante do Ensino Médio do CEEJA de Linhares, ouvida na divulgação oficial.

Ela tem nome no texto do órgão, e aqui esse nome não aparece. Não se trata de lacuna de apuração — é decisão editorial, e ela merece ser explicada. Nome completo somado a idade exata, ocupação, etapa cursada, escola e município aponta uma pessoa específica dentro de um grupo pequeno, e o cruzamento fica indexado em buscador por tempo indeterminado. Ela não dirige a escola nem responde por política pública — está no material como estudante, e a função descreve o que precisa ser descrito. Pelo mesmo critério ficaram de fora daqui os dados sobre a vida particular dela que a divulgação traz: estado civil e composição da família não acrescentam serviço nenhum a quem quer voltar a estudar, e estreitam ainda mais o universo de pessoas possíveis.

O critério é outro para quem responde profissionalmente pela unidade. Coordenação e direção são citadas pelo cargo que ocupam, e por isso a coordenadora pedagógica aparece nominalmente mais abaixo.

41 formaturas em 2024, e o que não se sabe sobre elas

O único dado de resultado da divulgação é este: em 2024, o CEEJA de Linhares registrou a formatura de 41 mulheres. Há um detalhe de calendário que muda a leitura do número: o material é de novembro daquele ano, ou seja, o ano letivo ainda não havia se encerrado quando a contagem foi divulgada — e o texto não diz se o total é parcial nem a que recorte de período se refere.

Falta, junto, tudo o que daria dimensão a essas 41 conclusões: quantas foram de ensino fundamental e quantas de ensino médio; quantas pessoas ao todo, homens incluídos, concluíram no mesmo período; quantas matrículas novas a unidade recebeu no ano, para efeito de comparação; e qual a proporção de quem entra e não termina. A evasão, que é o problema estruturante da modalidade, não é mencionada uma única vez.

Quem fala pela escola

A direção da unidade avalia assim o efeito do retorno das alunas às aulas — e a divulgação não informa o nome de quem ocupa o cargo, apenas a função:

“Ao se apropriar do conhecimento, essas mulheres não só modificam suas próprias trajetórias, mas também contribuem para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.”

A avaliação é da diretora do CEEJA de Linhares, cujo nome não consta do material divulgado.

A coordenadora pedagógica trata cada conclusão como resultado da escola inteira:

“Cada mulher que se alfabetiza ou retoma seus estudos representa uma conquista significativa para nossa escola”

A declaração é da coordenadora pedagógica Patrícia Flávia Cau, citada no material também na forma reduzida Patrícia Cau.

Como se matricula no CEEJA de Linhares: a resposta que falta

É justamente aqui, no que o leitor mais precisa, que a divulgação emudece. Como se faz a matrícula, o material não diz. Não traz endereço da unidade, telefone, e-mail, site, horário de atendimento da secretaria escolar, relação de documentos, exigência de idade nem prazo. Também não diz se existe período determinado de inscrição ou se a entrada corre ao longo do ano, nem como proceder se o histórico da escola onde a pessoa parou tiver se perdido.

Preencher essas lacunas exigiria inventá-las, e não é o que este texto vai fazer. O que existe de concreto são outras divulgações da mesma modalidade, todas posteriores a esta: em agosto de 2025 o próprio Ceeja Linhares conduziu uma etapa de uma campanha estadual de rua, cujo material descreve o caminho de matrícula na rede. As datas daquela campanha já passaram, e ação de rua nunca substituiu o atendimento na própria unidade — que segue sendo o balcão a procurar.

Um retrato feito por quem responde pela escola

Cabe o registro de praxe diante de texto produzido pelo próprio poder público. O material foi produzido pela estrutura estadual que responde pela unidade, é escrito em tom celebratório e credita à instituição e à educação um mérito que, no relato concreto, é de decisão de cada estudante: uma delas passou 34 anos fora da sala de aula e voltou por conta própria, encaixando o estudo entre dois turnos de trabalho.

Não há avaliação externa da unidade, não há dado de evasão, não há manifestação de quem se matriculou e desistiu, e não há qualquer indicador de aprendizagem. Silêncio crítico dentro de um material institucional não equivale a avaliação favorável vinda de fora.

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