A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) prendeu três homens, dois de 18 e um de 19 anos, suspeitos de abuso sexual de adolescentes, em ações feitas nos dias 23 e 29 de dezembro. As prisões couberam à Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), com apoio da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Vitória, e a polícia só as apresentou publicamente na quinta-feira (02) pela manhã, em entrevista coletiva na Chefatura de Polícia Civil. Até ali havia nove vítimas identificadas, e o próprio órgão dizia suspeitar de que existissem outras, em outras igrejas.
Estar preso não é ter sido julgado, e o comunicado da PCES para muito antes disso. Ele registra que houve prisão e não avança: não diz se alguma das três decorreu de flagrante ou de ordem judicial, não nomeia juízo nenhum, não informa se algum dos três foi levado a audiência de custódia nem se seguiram detidos depois da divulgação, e não cita artigo nenhum de lei. No texto corrido, a polícia os chama de suspeitos; em duas falas transcritas no mesmo material, aparecem chamados de autores. Vale aqui a palavra mais contida, porque é a que a etapa suporta: ninguém foi julgado, e a nota nem afirma que exista acusação formal apresentada. Ela é de 2 de janeiro de 2025 e nada traz sobre o que veio depois.
Três pessoas, duas datas e uma palavra só para tudo
O comunicado trata os três como bloco. Ele dá duas datas de prisão, 23 e 29 de dezembro, e três pessoas — mas não diz quem foi preso em cada uma delas, nem se as duas ações vieram da mesma decisão, nem se os três respondem no mesmo procedimento. Também não distingue a situação de um e de outro, e não informa quantas das nove vítimas são atribuídas a cada suspeito.
A idade, essa sim, está informada, e ela decide muita coisa: 18, 18 e 19 anos. Os três já haviam passado dos 18 e respondem pelo caminho comum a qualquer adulto. Bastaria que um deles tivesse um ano a menos para que o percurso mudasse do início ao fim, com outro vocabulário, outro rito e outro destino — e esta matéria teria de ser escrita sob regras bem mais restritivas. Nenhum dos três está nessa faixa.
O município que aparece no título não aparece no comunicado
Uma nota policial costuma carregar lugares diferentes dentro de si, e embaralhá-los muda o sentido de tudo: o lugar em que os fatos teriam acontecido, o lugar em que cada pessoa foi presa, a delegacia que investiga e o juízo que teria assinado alguma ordem. O material da PCES não informa nenhum dos quatro.
A única cidade citada é Vitória, e ela aparece por dois motivos que nada dizem sobre os fatos: é onde fica a Chefatura em que a coletiva foi realizada e é parte do nome da unidade que deu apoio à ação, a DHPP de Vitória. O nome de município que este post carrega no próprio endereço da página não tem uma única ocorrência no comunicado da polícia. Quem mora na cidade assim nomeada merece saber disso: o texto oficial não a coloca em ponto algum da história.
Nove adolescentes que este texto não deixa reconhecer
A polícia não divulgou o nome de nenhuma vítima, e também não divulgou o nome dos três presos. Esta matéria vai além do que o órgão já protegeu, e o corte foi decidido aqui — não é informação que tenha faltado à apuração.
Ficaram de fora, integralmente: qualquer dado pessoal das vítimas, qualquer descrição de como os episódios teriam ocorrido e qualquer detalhe de circunstância. Duas das quatro falas que o órgão transcreveu tratavam justamente disso e não foram reproduzidas — nem em parte, porque cortar pela metade um relato desses produz uma versão que ninguém prestou.
Em crime sexual, a conta não é feita dado a dado, e sim pela soma deles. Basta cruzar dois itens aparentemente inofensivos para que a vizinhança complete o resto sozinha. E o comunicado não fecha o universo: fala em nove vítimas identificadas até aquele momento e admite suspeita de outras, de modo que qualquer traço a mais publicado aqui estreitaria um grupo que a polícia deixou de propósito em aberto.
Quem percebe primeiro quase nunca é a polícia
A parte aproveitável da coletiva não estava no relato do caso, e sim no que a delegacia pediu que as famílias observassem:
Trabalhamos de forma integrada com a rede de proteção para garantir acolhimento às vítimas e familiares. Mudanças no comportamento, como retraimento ou queda no rendimento escolar, são sinais que devem ser observados. Suspeitando de algo, procure a DPCA para orientação e apoio
A recomendação partiu de Thais Cruz, delegada titular da DPCA, na coletiva do dia 2. Em seguida ela tratou do que a unidade faz depois que o caso chega, com psicólogos e assistentes sociais:
Cada cidade tem uma rede própria, mas todas as vítimas saem da DPCA já direcionadas para acompanhamento especializado
Vale traduzir a expressão que ela usa duas vezes. Rede de proteção é o nome do arranjo que continua com o adolescente quando a parte policial acaba: o conselho da cidade, o serviço municipal de assistência social, o atendimento de saúde e a escola, cada um com uma tarefa. O inquérito apura o que passou; esse arranjo cuida do que vem em seguida, e os dois correm ao mesmo tempo.
Sobre onde avisar, dois canais se aplicam a este caso concreto pelo que a própria polícia declarou — que as vítimas são adolescentes:
- Disque 100 — ligação gratuita, de qualquer telefone, para relatar o que está sendo feito a uma criança ou a um adolescente; o relato segue depois para quem pode investigar. É por onde entra a suspeita que ainda não é emergência: o adolescente que passa a evitar um lugar ou uma pessoa, o comportamento que muda sem explicação, a nota que despenca. Quem avisa não precisa se apresentar.
- Conselho Tutelar — órgão da própria cidade, que recebe o aviso, procura a família e acompanha o adolescente junto com a escola e o posto de saúde. É a porta mais próxima de quem mora ali, e serve inclusive quando ainda não há nada a investigar, só um sinal.
- 190 — emergência policial, para quando o perigo está acontecendo naquele instante e alguém precisa chegar.
- 181 — a linha estadual de denúncias, que aceita informação sobre crime sem que quem telefona se apresente.
Duas informações de serviço faltam no comunicado, e não dá para preenchê-las sem inventar. Ele manda procurar a DPCA e deixa de dizer em que rua ela fica, em que horário atende e por qual telefone. E, como não nomeia município nenhum, tampouco existe como dizer a qual Conselho Tutelar este caso pertence: quem quiser acionar o do lugar onde mora precisa buscar o contato na prefeitura, porque a nota oficial não o traz.
Nenhum crime nomeado num caso de abuso sexual de adolescentes
Sobre um caso com nove vítimas e três presos, o comunicado silencia em oito pontos:
- qual crime está sendo apurado — não há uma tipificação sequer no texto, nem na abertura, nem no fecho;
- que tipo de prisão foi aplicada a cada um dos três, e se houve ordem judicial em algum dos dois dias;
- em que cidade os episódios teriam ocorrido e em que cidade cada prisão foi cumprida;
- o que deu origem à investigação e há quanto tempo ela corria antes das prisões de dezembro;
- quantos templos estão sob apuração, já que o texto fala em outras igrejas no plural sem dizer quantas nem onde;
- se as nove vítimas identificadas se distribuem entre os três suspeitos ou se algum deles responde por parte delas;
- se os três permaneceram presos depois do dia 2, e por decisão de quem;
- se os três já têm advogado e se algum deles chegou a falar à polícia.
O caso chegou ao público por uma boca só: a corporação que fez as prisões, numa coletiva que ela mesma convocou. Nenhuma outra voz está no material — a defesa dos três não fala, nenhuma instituição religiosa é ouvida, e as famílias das vítimas também não aparecem. Este último silêncio é acerto, porque falar ali identificaria justamente quem não pode ser identificado.
Ainda em janeiro de 2025, a mesma unidade voltou a falar publicamente, dessa vez para apresentar o resultado do ano anterior: 1.941 inquéritos e 31 prisões contabilizados pela DPCA em 2024, com a rua e o horário de atendimento da delegacia que faltam neste comunicado. É divulgação posterior, sobre outro conjunto de casos, e serve para dimensionar o volume que passa pela unidade — não para descrever o que teria acontecido aqui.
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