
1º de abril é o Dia da Mentira, data em que pegadinhas circulam livremente pela internet e pelas conversas do dia a dia. A apuração desta reportagem checou as duas histórias mais repetidas sobre a origem da data em bases de legislação e enciclopédias — e nenhuma das duas resiste à checagem.
O que se comemora no Dia da Mentira
O Dia da Mentira é o dia em que marcas, portais e perfis publicam pegadinhas, e também o dia em que checadores de fatos costumam lembrar que boato de brincadeira e desinformação de verdade se confundem com facilidade. Prefeituras e órgãos públicos costumam aproveitar a data para reforçar quais são os seus canais oficiais de comunicação, justamente por causa do volume de informação falsa que circula nesse período.
A origem apurada: duas lendas derrubadas
A explicação mais repetida vem da França: com a mudança do início do ano civil para 1º de janeiro, no século XVI, quem continuasse festejando a virada no fim de março teria virado alvo de zombaria e de presentes falsos, e daí teria nascido o costume de pregar peças em 1º de abril. A enciclopédia Britannica é explícita ao dizer que as verdadeiras origens da data são desconhecidas e efetivamente irrastreáveis. A cronologia da versão francesa também não fecha: o édito de Paris que iniciou a mudança é de janeiro de 1563, a declaração de Roussillon é de 9 de agosto de 1564, o registro no Parlamento é de dezembro de 1564, e a nova regra só passou a valer em 1º de janeiro de 1567 — a mudança foi gradual e levou décadas, e o ano civil antigo começava na Páscoa, uma data móvel, não em 1º de abril fixo.
Há ainda um detalhe que derruba essa versão: a primeira referência clara à brincadeira de 1º de abril é de 1561, em Flandres, num poema de Eduard de Dene sobre um nobre que manda o criado a recados absurdos justamente nesse dia — três anos antes do édito francês que supostamente teria originado o costume. Registros ingleses do fim do século XVII também mostram a prática já espalhada, como uma nota de um jornal londrino de 2 de abril de 1698 contando que, na véspera, várias pessoas tinham sido enviadas à Torre de Londres sob o pretexto de ver os leões sendo lavados.
A segunda lenda é brasileira: conta-se que o jornal mineiro “A Mentira” teria anunciado, em 1º de abril de 1828, a morte de Dom Pedro I, que estava vivo. Essa versão também não resiste à checagem — nenhuma das reproduções da história cita exemplar, acervo ou bibliografia, a data oscila entre 1828 e 1848 conforme a fonte, e o próprio texto mais copiado é contraditório, ao chamar o periódico de “vida efêmera” e, na frase seguinte, dizer que ele circulou até 1849.
O que diz a lei sobre o Dia da Mentira
Não existe lei, decreto ou projeto criando o Dia da Mentira no Brasil. A checagem foi feita diretamente nas bases oficiais: na de dados abertos da Câmara dos Deputados, a busca pela palavra “mentira” não devolve nenhuma proposição relacionada à data; na base do Senado, nenhuma ementa traz a palavra; e na base de legislação LexML, os termos “primeiro de abril mentira” e “1º de abril mentira” não retornam nenhum item. O Dia da Mentira é, formalmente, uma data popular sem qualquer amparo legal.
Como a data é celebrada hoje
Sem lei, sem origem historicamente confirmada e sem exemplar físico que comprove a versão brasileira, o Dia da Mentira sobrevive puramente pela força do costume popular repetido geração após geração. Vale notar que, na contagem que considera 1º de abril, essa também é a data do golpe militar de 1964 no Brasil — coincidência de calendário que nada tem a ver com a origem da tradição das pegadinhas, mas que a apuração registrou como curiosidade do dia. A recomendação de quem estuda o tema é tratar toda explicação sobre a origem da data com a fórmula “conta-se que” ou “atribui-se a”, nunca como fato estabelecido.
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