Desfile cívico em Guarapari: o que a nota da polícia não conta — Direto Notícias

Desfile cívico em Guarapari: o que a nota da polícia não conta

O desfile de que trata este texto já tinha terminado quando o portal o publicou: ele foi na sexta-feira, 19 de setembro de 2025, e a publicação é do dia seguinte. A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) apresentou duas viaturas caracterizadas no Desfile Cívico Militar que marcou os 134 anos de Guarapari, na Avenida Celso Bastos Couto. O que o comunicado oficial conta sobre o desfile cívico em Guarapari cabe em poucas linhas; o que ele deixa de fora é bem maior, e é justamente a parte que interessa a quem mora na cidade.

Um ponto a favor do texto de origem, e ele é raro no acervo: a nota não convocou ninguém para um evento que já havia passado. Foi escrita no tempo certo, no passado, um dia depois. O problema dela é outro — descreve muito pouco do que aconteceu na avenida.

O único ato descrito são duas viaturas na abertura

Como ação concreta, a nota narra isto: duas viaturas caracterizadas da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core), apresentadas durante a abertura do desfile. Não aparecem no texto policiais marchando, banda, estande, exposição de equipamentos, distribuição de material informativo nem atendimento ao público. Também não se diz se as viaturas percorreram a avenida ou ficaram paradas num ponto, nem se quem assistia podia chegar perto delas.

Para a Superintendência de Polícia Regional Metropolitana (SPRM), citada logo na sequência da abertura, a palavra escolhida é ainda mais larga: participou do desfile para representar áreas variadas do trabalho de polícia judiciária. Quais setores, quantas pessoas, em que formato — nada disso está escrito. E participar é atividade, não resultado: não há aqui efeito a medir, nem o material tenta medir algum.

Cívico Militar é o nome do evento, não a descrição do que a corporação fez nele. O nome informa que tipo de solenidade era; sobre o ato praticado, quem informa é o verbo — e o verbo, aqui, é apresentar duas viaturas.

Uma unidade estadual, uma metropolitana e nenhuma delegacia de Guarapari

As duas unidades citadas vêm com apresentação institucional própria. A Core é descrita como unidade de elite, formada por policiais civis treinados para dar apoio tático em ocorrências de maior complexidade, com emprego de recursos como drones. A SPRM é apresentada como responsável pela gestão das unidades policiais da Grande Vitória.

Isso é o que as duas são, não o que fizeram na avenida: a nota não afirma, por exemplo, que algum drone tenha sido usado ali. E há uma lacuna que salta aos olhos de quem mora na cidade: nenhuma unidade policial de Guarapari é nomeada no texto. O material também não informa se as delegacias do município estão entre as que a SPRM administra, nem se alguma equipe local participou.

A Avenida Celso Bastos Couto entra sem percurso, sem horário e sem trânsito

O nome da avenida é a única informação de lugar do comunicado, e ele para aí. Ficaram de fora:

  • o horário de início e de término;
  • o percurso — de que ponto da avenida o desfile saiu, até onde foi e em que sentido;
  • a interdição de via: se a avenida foi fechada, por quanto tempo, que desvios havia e o que aconteceu com as linhas de ônibus e com o estacionamento;
  • onde o público podia assistir, se havia arquibancada, área reservada ou acessibilidade;
  • quanto tempo tudo durou.

Fechamento de rua atinge também quem não foi ao desfile — o morador que precisava sair de casa, o comerciante que abriu naquela manhã, quem dependia do ônibus. É serviço puro, e o comunicado passa ao largo dele.

Quem organizou os 134 anos não aparece, e nenhum número conta gente

A frase que dá conta da realização está na voz passiva e sem dono: o evento foi realizado. Quem convocou, quem montou a solenidade e quem pagou por ela — o poder público municipal, o governo estadual, alguma força militar — não é dito em momento nenhum. A PCES aparece como quem compareceu, e é disso que ela fala.

No mesmo silêncio ficam as demais participantes. O comunicado não nomeia nenhuma outra instituição — nem corporação, nem escola, nem banda, nem entidade civil — e também não usa nenhuma daquelas construções que deixam a lista em aberto. Ele simplesmente não fala das outras. Quem desfilou ao lado das viaturas continua desconhecido para quem leu o portal.

Tirando a data, os números do comunicado são dois. O 134 conta anos de Guarapari: é a idade da cidade, não do desfile nem de nada ligado à corporação. O 2 conta viaturas. Nenhum dos dois conta pessoas. Não há efetivo de policiais empregado no dia, não há quantidade de instituições participantes e, sobretudo, não há público. Quantos assistiram ao desfile dos 134 anos é a medida mais óbvia de um evento de rua, e é a que não foi divulgada.

O material é da própria corporação, e o fecho dele é um juízo sobre si

O texto de origem foi distribuído pela Polícia Civil e trata da participação da Polícia Civil. Isso não o desqualifica: desfile cívico é assunto legítimo, e a presença de uma corporação numa data da cidade interessa ao leitor local. Mas convém saber de onde a página fala. O último parágrafo larga o relato e passa a avaliar a instituição — fala em alcance da própria atuação e em dedicação a uma segurança pública mais humana e mais próxima. É a leitura que a corporação faz de si mesma; a narrativa dos fatos termina antes disso.

E nenhuma outra voz entra. Não há a administração municipal, que responde pela data do aniversário; não há quem assistiu da calçada; não há as outras instituições que desfilaram; não há morador nem comerciante da Avenida Celso Bastos Couto. Nem sequer um policial dos que estavam ali fala em nome próprio. O material é o comunicado de uma das participantes, e vale pelo que esse formato entrega.

E em 2026, tem desfile? A nota não chega lá

Sobre uma próxima edição, o comunicado não diz nada: nem que haverá, nem que não haverá. A distinção importa, porque uma coisa é o órgão informar que a data saiu do calendário, outra é ele encerrar o assunto no dia seguinte ao evento. O que existe aqui é a segunda. Quem quiser saber se o desfile se repete em 2026 precisa perguntar à administração municipal e às corporações — este material não responde.

Outros desfiles cívicos, e outro aniversário de cidade, no acervo do portal

Em agosto de 2024, um ano antes deste desfile, o governo estadual divulgou a programação da Semana da Pátria com exposições das forças de segurança em shopping centers, passeio ciclístico de 12 quilômetros e desfile de 7 de setembro na capital. Aquele aviso trazia ponto de concentração, horário e até o intervalo exato de fechamento de uma ponte — o serviço que falta ao comunicado de Guarapari existe quando o emissor quer publicá-lo.

Dois meses depois do desfile de Guarapari, já em novembro de 2025, o portal registrou uma situação de sinal trocado: uma cerimônia cívica mensal passou a ser cumprida sem o desfile militar que a acompanhava, enquanto durarem obras no local onde ela ocorre. É outra solenidade, fora do Espírito Santo, sem ligação com o calendário de Guarapari.

E o aniversário de município como data de agenda oficial aparece de outra forma no acervo: em julho de 2025, dois meses antes deste desfile, o aniversário de outra cidade capixaba foi marcado por um pacote de quatro obras anunciadas, das quais só uma estava concluída. Lá a data virou anúncio de investimento; em Guarapari, virou desfile — e cada formato deixa de fora coisas diferentes.

O que saiu da versão que estava no ar

A página publicada terminava com uma relação de telefones de comunicação interna e de assessoria de imprensa da corporação. Aquilo não é canal de atendimento ao cidadão: é contato de trabalho para jornalista, e por isso não está aqui. Fora isso, os fatos desta matéria são os mesmos da nota oficial — nenhum horário, percurso, organizador ou número de público foi acrescentado, porque nenhum deles foi divulgado.

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