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28 de julho: Santos Nazário e Celso, os mártires de Milão achados por Ambrósio

vela acesa diante de altar antigo de pedra em igreja escura
Foto: Anna Shvets / Pexels

28 de julho é o dia em que o calendário lembra os Santos Nazário e Celso, dois mártires de Milão sobre os quais se sabe muito pouco e se conta muito. A distância entre essas duas coisas é justamente o que faz da data um bom assunto: ela mostra como a memória de uma comunidade cristã atravessou séculos apoiada em quase nenhum documento e num achado de cemitério.

Santos Nazário e Celso: o que se comemora em 28 de julho

Nazário e Celso são dois mártires cristãos de Mediolano, a atual Milão. Sobre eles, nada se sabe com segurança além da descoberta de seus corpos por Santo Ambrósio, o bispo da cidade. Tudo o mais chegou até nós por narrativas escritas muito depois, que a própria Igreja Católica trata como tradição, e não como crônica.

Vale já registrar uma divergência de calendário, porque ela existe e esconder não ajudaria ninguém. As fontes católicas em português dão 28 de julho como o dia dos dois. Uma referência enciclopédica, porém, registra 19 de junho como dia consagrado em calendários regionais, apoiada num calendário paroquial de língua inglesa. As duas informações convivem, e o leitor que encontrar a segunda não está diante de um erro.

A lenda: de Roma à Gália e de volta a Milão

Segundo a tradição, Nazário nasceu em Roma na segunda metade do século I, filho de pai judeu ou pagão, e de mãe cristã, Santa Perpétua. Teria sido aluno de São Pedro e batizado por São Lino. Durante as perseguições de Nero, fugiu de Roma e passou a pregar na Lombardia, visitando Placência e Milão, onde encontrou os irmãos Gervásio e Protásio, então presos, cujo exemplo o teria animado.

Chicoteado e condenado ao exílio, viajou para a Gália. Ali, uma senhora convertida lhe entregou o filho, um garoto de nove anos chamado Celso, para que o batizasse e o ensinasse. A partir daí os dois não se separaram mais. Foram presos e torturados juntos e só saíram da cadeia depois de prometerem que não pregariam mais na região. Seguiram para os Alpes, ergueram uma capela em Embrun e continuaram até Gênova e Tréveris, pregando e convertendo, até serem presos outra vez. Celso foi entregue aos cuidados de uma senhora pagã, que tentou fazê-lo abjurar a fé sem sucesso, e acabou devolvido a Nazário.

Uma outra versão conta que os dois foram julgados por Nero em Tréveris, que teria mandado afogá-los, e que uma tempestade repentina assustou os marinheiros, que os puxaram de volta ao navio. Chegaram por fim a Mediolano, onde foram presos pela última vez e, por se recusarem a sacrificar aos deuses romanos, foram decapitados. Uma das versões diz que o juiz Anolino mandou passar ambos à espada, em 28 de julho, na perseguição de Nero.

O jardim fora das muralhas de Mediolano

O episódio que a documentação antiga sustenta é outro, e é de 395. Segundo Paulino, o Diácono, biógrafo de Santo Ambrósio, o próprio bispo, em algum momento dos três anos finais de sua vida, depois da morte do imperador Teodósio, descobriu num jardim fora das muralhas da cidade o corpo de São Nazário, com a cabeça separada do corpo, os cabelos e a barba conservados e o sangue ainda líquido e vermelho quando exumado.

O bispo levou o corpo para a Basílica dos Apóstolos. No mesmo jardim, descobriu também o corpo de São Celso, que transportou para o mesmo lugar. Não era a primeira vez: Ambrósio já havia protagonizado episódio semelhante com os corpos dos mártires Gervásio e Protásio, e os quatro passaram a ser chamados nas fontes de Quatro Mártires de Milão. A Enciclopédia Católica comenta que, obviamente, a tradição sobre esses mártires ainda existia na comunidade cristã de Mediolano, o que levou à busca e à descoberta dos corpos. Dito de outro modo: o bispo não inventou dois nomes, foi procurar onde a memória popular dizia que estavam.

O que a Igreja afirma e o que ela não afirma

Aqui está a parte mais interessante para quem gosta de história. As fontes são unânimes ao dizer que as narrativas sobre a vida dos dois foram escritas muito depois e não têm fundamento histórico verificável. Paulino, o Diácono, o autor mais próximo dos fatos, afirma que a data do martírio é desconhecida. E o sermão elogioso aos dois santos que durante séculos foi atribuído a Santo Ambrósio é considerado não legítimo.

O que resta, então? Resta o culto, que é material e datável. Ambrósio enviou parte das relíquias a São Paulino de Nola, que as colocou em lugar de honra em Nola e elogiou Nazário em sua obra. Um relicário de prata do século IV foi encontrado na igreja San Nazaro Maggiore, em Milão. A igreja Santa Maria presso San Celso, também em Milão, é dedicada ao mais jovem dos dois. E há até uma pintura de São Nazário feita por Ticiano, séculos depois, prova de que o assunto seguiu vivo na arte.

É por isso que a data ensina alguma coisa mesmo a quem não a celebra. Ela mostra a diferença entre o que uma comunidade lembra e o que ela consegue provar, e mostra que a Igreja Católica sempre soube distinguir uma coisa da outra: manteve a devoção a dois mártires e, ao mesmo tempo, registrou nos seus próprios livros que a data do martírio se perdeu. Contar isso ao leitor é mais honesto, e mais interessante, do que apresentar a lenda como se fosse reportagem.

Outras datas de julho

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