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13 de abril: Santa Margarida de Città di Castello, a menina que os pais abandonaram

bengala branca apoiada em banco de madeira de igreja vazia
Foto: Berna / Pexels

13 de abril é o dia de Margarida de Città di Castello, uma leiga italiana do século XIV que nasceu cega e com várias deficiências, foi escondida pela própria família e acabou abandonada numa cidade estranha, ainda criança. Setecentos anos depois, o nome dela está no catálogo dos santos da Igreja Católica.

Cega e escondida numa cela junto à igreja do castelo

Margarida nasceu por volta de 1287 em Metola, no território de Urbino, na Itália, em família nobre. Veio ao mundo cega, com a coluna deformada, um braço malformado, baixa estatura e uma perna mais curta que a outra. Para os pais, uma filha assim era vergonha a esconder: mantiveram a menina fechada numa cela junto à igreja do castelo, longe dos olhos de quem pudesse comentar.

Ainda menina, por volta dos cinco ou seis anos, foi levada a Città di Castello, à igreja de São Francisco, ao túmulo de um frade franciscano leigo chamado Giacomo, morto em 1292 com fama de santidade. A viagem tinha objetivo declarado e único: obter o milagre da visão para a filha que a família não sabia como apresentar ao mundo.

O milagre que não veio e o abandono na cidade

O milagre não veio. Diante disso, os pais tomaram a decisão que marca para sempre essa história: foram embora e a deixaram ali, sozinha, entregue à caridade dos moradores. Uma criança cega, com dificuldade para andar, largada numa cidade onde não conhecia ninguém e não tinha para onde voltar.

Quem a recolheu foi um casal devoto, Grigia e Venturino, que lhe deu abrigo num cômodo da casa e a tratou como filha. Foi nessa casa emprestada que ela cresceu. Ligou-se aos frades pregadores e tornou-se leiga da Ordem da Penitência de São Domingos, as chamadas mantellate, terciárias dominicanas que viviam no meio do povo, sem convento e sem clausura.

Margarida de Città di Castello, terciária dominicana

Aqui a história inverte o que se esperaria dela. Pela condição física, era a candidata natural a receber obras de misericórdia; virou quem as praticava. Cuidava de doentes, consolava moribundos, visitava presos e ensinava as crianças da vizinhança a rezar e a doutrina cristã. Levava vida de penitência, com jejuns e vigílias, e ficou conhecida na cidade como conselheira espiritual, procurada por gente simples atrás de um conselho ou de uma palavra firme.

Tinha devoção particular à Sagrada Família de Nazaré, e é assim que costuma aparecer representada: em oração diante do presépio. Morreu em Città di Castello em 13 de abril de 1320, aos 33 anos. O povo da cidade pediu que fosse sepultada dentro da igreja, o que não era comum para uma leiga pobre, e esse pedido é o melhor indício de como aquela mulher era vista por quem convivia com ela todos os dias.

Por que Margarida de Città di Castello foi declarada santa em 2021

O culto a ela foi confirmado em 1609, e por séculos permaneceu beata, venerada sobretudo na região onde viveu. A mudança veio em 24 de abril de 2021, quando o papa Francisco autorizou a Congregação para as Causas dos Santos a promulgar o decreto que estendeu à Igreja universal o culto da beata Margarida de Città di Castello, da Terceira Ordem dos Pregadores, inscrevendo-a no catálogo dos santos.

O caminho usado tem nome próprio: canonização equipolente. Nele não há processo de milagre novo nem cerimônia solene na praça; o papa reconhece um culto antigo, constante e comprovado e o estende à Igreja inteira. Vale reparar na diferença entre as duas datas, que aparece trocada em muito texto de divulgação: 13 de abril é a data da morte e da memória; 24 de abril de 2021 é a data do decreto.

Para o leitor brasileiro, a história tem eco direto na lei. A Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, diz em sua ementa que se destina a assegurar e promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais pela pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania. Traduzido em linguagem de todo dia: a família não pode esconder, a vizinhança não pode ignorar e o poder público tem obrigação de garantir escola, saúde e convivência. A vida dessa mulher é o retrato exato do que acontece onde esse amparo não existe, e a data serve, nas paróquias e nas escolas, para lembrar que ninguém nasce sobrando.

Outras datas de abril

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