
Em 10 de janeiro de 1912, o Exército e a Marinha do Brasil bombardearam Salvador, capital da Bahia. O Bombardeio de Salvador é um dos episódios mais brutais da Primeira República e continua fora da maioria dos manuais escolares.
O estopim do Bombardeio de Salvador
O estopim foi uma disputa pelo governo estadual: o presidente Hermes da Fonseca apoiava o ministro da Viação José Joaquim Seabra contra os chefes conservadores baianos, entre eles Rui Barbosa e Severino Vieira. O governador Aurélio Viana fechou a Assembleia em Salvador e mandou reabri-la em Jequié; os deputados seabristas conseguiram habeas corpus para entrar no prédio, a polícia estadual barrou o cumprimento da ordem judicial, e o general Sotero de Meneses divulgou naquele mesmo 10 de janeiro um boletim avisando que usaria a força para garantir o direito dos congressistas de ocupar o plenário.
Ter o presidente da República tomando partido explícito numa disputa de poder estadual, a ponto de o Exército aparecer como ator direto no conflito, mostra como as fronteiras entre política federal e política estadual eram tênues naquele momento da história do país. A decisão de transferir a sede da Assembleia para Jequié, longe da capital, também revela o quanto o governador tentava, sem sucesso, esvaziar a força política dos deputados contrários a ele.
Cinco horas de canhão sobre a capital baiana
Às 13h40, os canhões do Forte São Marcelo deram dois tiros de pólvora seca, como advertência. Vinte minutos depois começou o bombardeio de verdade: cinco horas seguidas de fogo, cerca de 78 tiros de canhão, prédios públicos e casas destruídos pela cidade, dezenas de feridos. Não foi um tiroteio pontual nem uma demonstração rápida de força — foi um cerco de artilharia prolongado contra uma capital de estado, algo sem paralelo na história republicana do país.
O que se perdeu: biblioteca e palácio
A Biblioteca Pública do Estado e o palácio do governo estavam entre os alvos atingidos pelo bombardeio, e com eles se perderam livros e documentos que nenhuma reconstrução posterior recuperou. É um tipo de perda que nenhuma indenização ou reconstrução de prédio consegue desfazer: documento histórico destruído por canhão não volta.
Bombardear uma biblioteca pública não era, do ponto de vista militar, um alvo estratégico — mas fazia parte do mesmo cerco de artilharia que atingiu o palácio do governo, e nenhum tipo de prédio na área de fogo escapou por ser civil ou cultural. É esse detalhe que costuma chocar mais que o próprio número de tiros: cinco horas de canhão sobre uma capital não distinguem arquivo histórico de prédio administrativo, e o acervo perdido naquele dia nunca foi recomposto.
Seabra venceu, e a avenida ficou com o nome dele
Ao fim da disputa, Seabra acabou eleito governador e mandou na Bahia de 1912 a 1916 — foi ele quem abriu a avenida que leva seu nome em Salvador até os dias de hoje. O episódio termina, portanto, com o lado que pediu o bombardeio no comando do estado pelos quatro anos seguintes, e com o nome dele fixado na paisagem urbana da própria cidade que foi bombardeada.
Quem hoje anda por essa avenida dificilmente associa o nome dela ao episódio de artilharia que abriu caminho político para o governador que a mandou construir. É um padrão que se repete em outras cidades brasileiras: nome de rua e avenida homenageando figuras cuja ascensão ao poder envolveu episódios de violência que o tempo foi apagando da memória coletiva, restando apenas a placa com o nome.
Não há lei federal que institua 10 de janeiro como data comemorativa do Bombardeio de Salvador — é efeméride histórica, sem norma que a crie, e a Lei nº 12.345, de 2010, que fixa critério para instituir novas datas comemorativas no país, exige alta significação comprovada e consulta pública prévia, requisitos que nunca foram acionados para este episódio. O que fica é o registro histórico puro: um governo federal mandou bombardear a própria capital de um estado para resolver quem ficaria com o poder local.
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