
Oswald de Andrade nasceu em São Paulo em 11 de janeiro de 1890 e morreu na mesma cidade em 22 de outubro de 1954. Foi o mais provocador dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, e Oswald de Andrade deixou como legado dois manifestos que deram programa a todo o modernismo brasileiro.
Oswald de Andrade e os manifestos da antropofagia
O primeiro foi o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, de 1924; o segundo, o Manifesto Antropófago, de 1928, que abre com a frase “só a antropofagia nos une” e data o próprio texto pelo “ano 374 da deglutição do Bispo Sardinha” — uma forma de calendário alternativo, irônico, que já dizia no formato o que o conteúdo viria a defender.
Devorar a cultura europeia para transformá-la
A ideia central dos manifestos era simples de enunciar e continua incômoda até hoje: em vez de copiar a cultura europeia ou recusá-la em bloco, devorá-la e transformá-la em outra coisa, do jeito que os tupinambás faziam com o inimigo capturado. Não era rejeição nem cópia — era apropriação com transformação, um terceiro caminho que a crítica cultural ainda usa como ferramenta de leitura do Brasil até hoje.
Propor essa terceira via em pleno ano de 1928 colocava Oswald de Andrade fora dos dois campos que dividiam o debate cultural brasileiro da época: de um lado, quem defendia copiar sem questionar os modelos europeus; de outro, quem pregava fechar as portas para qualquer influência estrangeira. A antropofagia recusava as duas saídas fáceis e propunha um trabalho mais difícil, de digestão crítica em vez de escolha simples entre aceitar ou recusar em bloco.
Romances de montagem e amores que viraram história
Oswald de Andrade escreveu romances de montagem rápida, quase cinematográfica — Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande —, viveu com Tarsila do Amaral e depois com Patrícia Galvão, a Pagu, passou pelo Partido Comunista e rompeu com ele. A vida pessoal e a vida literária caminhavam juntas nesse período: cada relação e cada ruptura política deixava marca visível na obra que ele produzia em seguida.
Essa proximidade entre biografia e obra é um dos motivos pelos quais Oswald de Andrade continua sendo lido também como registro de época, além de autor de ficção: quem acompanha a sequência de romances, manifestos e rupturas políticas está, ao mesmo tempo, acompanhando um recorte da vida cultural e política de São Paulo naquelas décadas.
Uma obra mal lida até morrer
Oswald de Andrade morreu com a obra ainda mal lida pelo público e pela crítica do seu tempo. A antropofagia só viraria chave de interpretação do Brasil décadas depois, no Tropicalismo dos anos 1960, movimento que resgatou a ideia de devorar influências estrangeiras e nacionais ao mesmo tempo. Hoje o conceito é exportado como referência em bienais e universidades estrangeiras, um destino que o autor não chegou a ver em vida.
Esse descompasso entre o momento em que uma ideia é lançada e o momento em que ela finalmente encontra leitores e intérpretes à altura é comum na história cultural, mas raramente acontece numa escala tão grande quanto a que separa o Manifesto Antropófago de 1928 do Tropicalismo três décadas depois. Oswald de Andrade escreveu para um público que, em boa parte, só chegaria depois que ele já não estava mais vivo para ver.
O 11 de janeiro é a única data fixa que a biografia de Oswald de Andrade oferece ao calendário, e cai a pouco mais de um mês do aniversário da Semana de 22, em fevereiro. Não há lei federal que institua esta data comemorativa — é efeméride histórica, e a Lei nº 12.345, de 2010, que fixa critério para instituir novas datas no calendário nacional, exige alta significação comprovada e consulta pública prévia, exigências que nunca foram acionadas para este dia.
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