
Benjamin Constant Botelho de Magalhães morreu no Rio de Janeiro em 22 de janeiro de 1891, pouco mais de um ano depois da Proclamação da República e menos de um mês antes da promulgação da primeira Constituição republicana do país. Benjamin Constant nasceu em Niterói em 1837 e passou a vida como professor, não como militar de linha de frente.
Benjamin Constant, o professor que convenceu a tropa
Formou-se engenheiro militar e deu aulas na Escola Militar da Praia Vermelha e no Imperial Instituto dos Meninos Cegos, hoje Instituto Benjamin Constant, que leva seu nome. Foi o principal divulgador do positivismo de Auguste Comte entre os jovens oficiais, e foi essa doutrina, e não o exército, que fez dele o articulador civil do 15 de novembro de 1889: quem convenceu a tropa foi o professor, não um general.
Do Ministério da Guerra à Instrução Pública
No governo provisório que se seguiu à Proclamação, Benjamin Constant ocupou a pasta da Guerra e depois criou e chefiou o Ministério da Instrução Pública, Correios e Telégrafos, de onde tentou uma reforma geral do ensino que não sobreviveu à sua morte precoce. A reforma educacional que ele desenhou ficou pela metade, interrompida pela doença que o levou aos 54 anos.
Passar da pasta da Guerra para um ministério dedicado à instrução pública, aos correios e aos telégrafos mostra o quanto o novo governo ainda estava organizando suas próprias prioridades: um mesmo professor de engenharia militar acumulava, em poucos meses, a defesa nacional e a reforma da educação do país inteiro, sinal de como o quadro de nomes disponíveis para montar o primeiro escalão republicano era ainda reduzido.
Ordem e Progresso: a herança na bandeira
Do positivismo que Benjamin Constant pregava veio também a divisa que ficou na bandeira nacional, desenhada em 1889 por Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos: “Ordem e Progresso” é adaptação da fórmula de Comte, “o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim”. É um dos raros casos em que uma frase de filosofia acadêmica europeia acaba estampada, resumida, no símbolo nacional de um país inteiro.
A síntese de três palavras que virou cinco letras — “Ordem e Progresso” — carrega, sem que a maioria de quem vê a bandeira perceba, todo um sistema de pensamento que Benjamin Constant passou a vida ensinando a jovens oficiais na Escola Militar da Praia Vermelha. É um caso raro em que uma corrente filosófica europeia deixou marca permanente e visível no símbolo máximo de um país, décadas depois de quem a divulgou já ter morrido.
O “Fundador da República” que a apuração não confirma
Circula com frequência a afirmação de que uma lei teria declarado Benjamin Constant “Fundador da República”. A apuração para esta reportagem não localizou o número, o ano nem a ementa dessa norma em base oficial, e por isso ela não é afirmada aqui. O que está documentado é o título honorífico atribuído a ele pelos constituintes republicanos de 1890-1891, registrado pelo Museu Casa de Benjamin Constant — uma homenagem política de época, diferente de uma lei formal, e é essa diferença que fica registrada como lacuna, não como certeza.
Ser lembrado por um instituto, por uma cidade e por uma frase de bandeira, e ainda assim ter a própria data de morte praticamente esquecida no calendário nacional, é um contraste que diz algo sobre como a memória histórica funciona: às vezes o símbolo sobrevive muito mais tempo do que o conhecimento sobre quem o criou.
Morreu aos 54 anos, doente, e o 22 de janeiro é uma efeméride que quase ninguém marca — apesar de o nome de Benjamin Constant estar num instituto federal, numa cidade do Amazonas e no lema que o país estampa na própria bandeira.
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