
4 de abril é a data do aniversário de morte de São Benedito, o Mouro, frade franciscano que morreu na cozinha de um convento na Sicília, em 1589 — e não o dia em que a Igreja celebra oficialmente sua festa no calendário atual.
Quem foi São Benedito, o Mouro
Benedito nasceu por volta de 1526 em San Fratello, no interior de Messina, na Sicília, filho de africanos trazidos como escravos para a ilha. Cresceu pastoreando, ganhou fama de homem de oração entre os vizinhos e entrou primeiro para um grupo de eremitas que seguia a regra franciscana. Em 1562 passou ao convento dos frades menores em Palermo, onde viveu os últimos vinte e quatro anos como cozinheiro, mestre de noviços e, por um período, superior da comunidade, ainda que mal soubesse ler. Morreu na cozinha do convento em 4 de abril de 1589, aos 63 anos. Pio VII o canonizou em 24 de maio de 1807, e a partir dali ele se tornou o santo negro de maior devoção no mundo católico de língua portuguesa e espanhola.
Por que 4 de abril não é dia de festa no calendário atual
Segundo a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, a festa de São Benedito, o Mouro, foi fixada em 4 de abril no momento da canonização, justamente por ser o dia da morte — mas era, segundo a mesma fonte, “data ruim para celebrar um santo, por causa da coincidência com a Semana Santa ou Páscoa”. Depois da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, a festa foi transferida para 5 de outubro, um dia depois da festa de São Francisco. O Anuário Franciscano, porém, continua marcando 4 de abril como a data da morte. É por isso que esta reportagem trata o dia como aniversário de morte, e não como celebração litúrgica corrente.
O que existe no lugar de uma lei: as Bandas de Congo
Não existe norma brasileira que institua 4 de abril como dia de São Benedito. O que existe, no Espírito Santo, é uma lei sobre a manifestação popular que a devoção ao santo ajudou a criar. A Lei estadual nº 10.363, de 6 de maio de 2015, declara as Bandas de Congo patrimônio imaterial do Estado.
“Declara as Bandas de Congo patrimônio imaterial do Estado.” “As Bandas de Congo ficam declaradas patrimônio imaterial do Estado.” A lei foi promulgada no Palácio Domingos Martins, em 06 de maio de 2015, pelo presidente da Assembleia Legislativa, Theodorico Ferraço.
A lei não cria data comemorativa alguma: protege a manifestação. No Brasil escravista, as irmandades de homens pretos adotaram São Benedito como padroeiro justamente porque a história dele não escondia a origem — era um santo que os brancos também tinham de reverenciar. Dessa adoção nasceram congadas, reinados, folias e festas de mastro que atravessaram o século XIX e chegaram inteiras ao século XXI. No Espírito Santo, as bandas de congo, com tambores de tronco escavado, casaca e cuíca, acompanham procissões e cantos do litoral sul ao norte do estado; em Conceição da Barra, o ticumbi encena, entre o Natal e o Dia de Reis, o embate entre cristãos e mouros, também sob a invocação de São Benedito.
Em Guarapari, a fincada de mastro de São Benedito
Guarapari tem a sua parte nessa devoção. Em Alto Rio Calçado, a comunidade Sagrado Coração de Jesus organiza a fincada de mastro de São Benedito, ponto alto da festa, e a prefeitura já registrou o rito em notícia oficial: o prefeito Rodrigo Borges esteve presente durante a fincada e fez uma participação especial na banda de Congo. A mesma notícia explica a lenda que corre de boca em boca no litoral capixaba: a festa nasceria de um navio negreiro naufragado na costa, cujos tripulantes teriam se agarrado ao mastro pedindo proteção ao santo até alcançar terra firme. É por isso que os devotos põem a mão no mastro e ali fazem pedido e agradecimento. 4 de abril não é feriado, não tem lei que o institua, e quase não aparece em calendário: é apenas a data da morte de um frade siciliano que virou, do outro lado do Atlântico, o santo em torno do qual comunidades negras organizaram a própria festa.
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