
1º de abril é a data em que o calendário dos santos lembra São Hugo de Grenoble, bispo que passou mais de cinquenta anos à frente de uma diocese que ele próprio queria ter deixado para virar monge.
Quem foi São Hugo de Grenoble
Hugo nasceu por volta de 1053 e queria ser monge. Nunca conseguiu. Aos vinte e sete anos foi nomeado bispo de Grenoble, nos Alpes franceses, pelo papa Gregório VII, o mesmo que naqueles anos tentava arrancar a Igreja das mãos dos senhores feudais, acabar com a compra e venda de cargos eclesiásticos e impor disciplina a um clero que vivia como qualquer outro proprietário de terra. Grenoble era um caso perdido: diocese empobrecida, rendas usurpadas, padres mal formados, povo sem catequese.
Hugo pediu para largar o cargo e ir para um mosteiro, e o papa mandou que ficasse. Segundo o Vatican News, ficou cinquenta anos à frente da diocese; já o verbete da Paulus dá as datas de vida como 1053 a 1132 e diz que ele ficou no cargo cinquenta e dois anos, depois de nomeado aos vinte e sete. Por isso o correto é dizer que Hugo governou Grenoble por mais de cinquenta anos, atravessando sete pontificados sucessivos, até morrer em 1132. Reconstituiu o patrimônio da diocese, cobrou dos padres o que eles não queriam ouvir e pregou ele mesmo ao povo, num tempo em que bispo pregar era exceção. Inocêncio II o canonizou em 1134, dois anos depois da morte — uma velocidade quase inédita para a época.
O gesto que a história guarda: uma montanha entregue aos cartuxos
Hugo estudou em Valença e em Reims, onde foi aluno de São Bruno. Em junho de 1084 recebeu esse mesmo professor, agora chamado Bruno de Colônia, e mais seis companheiros decididos a viver longe de tudo. Em vez de empregá-los na diocese, que precisava tanto de gente, o bispo os levou pessoalmente a um vale gelado do maciço que os franceses chamam Chartreuse e lhes entregou a montanha. Dali saiu a Ordem dos Cartuxos, que tomou o nome do lugar e se tornou um caso raro na história das ordens religiosas: nunca precisou de reforma porque nunca se deformou. Cada monge vive numa cela própria, com oficina e um pedaço de jardim, sai para o coro, para a missa e para uma caminhada semanal com os irmãos, e passa o resto do tempo em silêncio.
A única cartuxa do Brasil e da América Latina
A ordem chegou ao Brasil quase novecentos anos depois. Em 21 de novembro de 1984, festa da Apresentação de Nossa Senhora, monges abriram o Mosteiro de Nossa Senhora Medianeira em Boca da Picada, no município de Ivorá, a cerca de quarenta e cinco quilômetros de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. É a única cartuxa do Brasil e da América Latina. A ordem não mantém site oficial e o mosteiro não recebe visitantes, o que torna difícil qualquer checagem em fonte primária; os dados aqui vêm do diretório brasileiro Ora et Labora e de artigo acadêmico publicado na revista Disciplinarum Scientia. Segundo essas fontes, quem sobe a estrada de chão até o mosteiro encontra na entrada uma placa que resume a regra que São Hugo de Grenoble ajudou a inaugurar novecentos anos antes: os monges estão orando por vocês, não se visita.
Sem lei, uma tradição de quase mil anos
Não foi localizada nenhuma norma brasileira, federal, estadual ou municipal, que institua data em 1º de abril ligada a Hugo, aos cartuxos ou à vida contemplativa. O que existe é só o calendário da Igreja, que fixou a memória no dia da morte do bispo que preferia o silêncio ao poder e acabou fundando, sem nunca entrar nela, uma das ordens mais radicais do Ocidente. No mesmo dia, o calendário do Vaticano também lembra São Venâncio, bispo de Salona na Dalmácia, e seus companheiros mártires.
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