
São Martinho I é lembrado em 13 de abril, mas essa data não marca o dia da sua morte — um engano que aparece com frequência em textos devocionais e que vale a pena desfazer logo de início. Nascido em Todi, na Úmbria, ele servia à Igreja de Roma quando o papa Teodoro morreu, em 649. A ficha oficial da Santa Sé registra o início do pontificado dele em 5 de julho daquele ano e o fim em 16 de setembro de 655 — foi nesse dia de setembro, e não em abril, que São Martinho I morreu.
Quem foi São Martinho I
Martinho assumiu o papado sem esperar que o imperador de Constantinopla referendasse a eleição, e essa foi a primeira das suas desobediências. A segunda foi maior: poucos meses depois, convocou um concílio na basílica de São João de Latrão para julgar o monotelismo, a doutrina que admitia em Cristo uma só vontade, a divina, esvaziando a humanidade de Jesus. O imperador Constante II tinha publicado um edito, o Typos, que não resolvia a controvérsia: proibia discuti-la, em nome da paz. O concílio de 649 discutiu assim mesmo e condenou a tese. Ao lado de Martinho estava o monge Máximo, que a história chamaria de Confessor.
A desobediência que custou caro ao papa Martinho I
O papa pagou caro pela coragem. Em 653 foi preso pelo exarca imperial de Ravena e transferido para Constantinopla. A viagem até o Bósforo durou meses e acabou com a saúde dele, que ainda foi exposto em praça pública antes de ser jogado num cárcere. Numa catequese de 25 de junho de 2008, o papa Bento XVI resumiu o desfecho:
“O papa Martinho teve de pagar cara a sua coragem, foi aprisionado e transferido para Constantinopla, processado e condenado à morte, obteve a comutação da pena no exílio definitivo na Crimeia, onde faleceu no dia 16 de Setembro de 655, depois de dois longos anos de humilhações e tormentos.”
Das cartas do exílio ficou a queixa mais humana de todas: a de que o esquecimento dos amigos e dos parentes doía mais do que a fome. São Martinho I morreu em Quersoneso, na Crimeia, e é o último papa venerado como mártir. A doutrina pela qual ele pagou, a das duas vontades de Cristo, a divina e a humana, foi confirmada pelo Terceiro Concílio de Constantinopla, em 680, vinte e cinco anos depois da morte dele.
Por que 13 de abril não é o dia da morte do papa
A memória litúrgica de 13 de abril foi fixada pelo calendário romano reformado depois do Concílio Vaticano II, e é classificada oficialmente como memória facultativa — não festa, não solenidade. Não há, em documento da Santa Sé consultado nesta reportagem, explicação registrada para a escolha desse dia específico, e por isso este texto não arrisca um motivo para ela. O que se sabe com certeza, porque está na própria ficha da Santa Sé e foi confirmado por Bento XVI, é que São Martinho I morreu em 16 de setembro de 655, e não em 13 de abril. Também não há confirmação oficial, em documento da Santa Sé, para o episódio, comum em páginas de devoção, sobre um punhal que teria cegado um agressor durante uma missa; sem essa confirmação, essa história fica de fora.
O gancho capixaba: o santo do dia no Convento da Penha
No Espírito Santo, quem leva essa memória ao fiel comum é o Convento da Penha, em Vila Velha, principal santuário do estado. O convento publicou o verbete de São Martinho I na sua seção de santo do dia em 13 de abril de 2019, com reflexão assinada pelo padre Evaldo César de Souza, redentorista. Não é lei nem data comemorativa civil — é uma memória facultativa da Igreja Católica, cuidada por um santuário capixaba, e a distinção entre a data litúrgica e a data real da morte do papa é justamente o tipo de precisão que a escola deveria ensinar antes de qualquer nome de santo.
Fica a lição para quem estuda: uma data no calendário religioso nem sempre marca o dia de um acontecimento. Às vezes marca apenas o dia escolhido, séculos depois, para lembrar dele — e é preciso separar as duas coisas para não repetir um erro que já virou hábito em muitos textos.
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