
30 de julho de 1986 é o dia em que morreu Luís da Câmara Cascudo, o autor que primeiro tratou a cultura popular brasileira como assunto sério de pesquisa, numa época em que o meio intelectual do país a considerava tema menor. Ele morreu em Natal, aos 87 anos, na mesma cidade em que havia nascido, em 30 de dezembro de 1898.
Quem foi Luís da Câmara Cascudo
Câmara Cascudo era historiador, advogado de formação e antropólogo e etnógrafo por vocação. Fundou a Sociedade Brasileira de Folclore em 1941 e passou a vida seguinte percorrendo festas, danças, mitos, comidas e crendices espalhadas pelo país, tratando cada uma delas como dado a ser registrado com rigor, não como curiosidade de interior. Foi esse método que fez dele referência obrigatória para qualquer estudo posterior sobre cultura popular brasileira, num tempo em que essa área de pesquisa praticamente não existia de forma organizada dentro das universidades do país.
Não é pequeno o mérito de ter sustentado esse trabalho sozinho, sem o apoio institucional que pesquisadores de outras áreas já tinham na época. Câmara Cascudo viajava, entrevistava, comparava versões de uma mesma lenda contada em estados diferentes e publicava os resultados em livro, um a um, ao longo de décadas — um método de trabalho de campo que muitos cursos de antropologia só viriam a formalizar depois.
O dicionário que virou referência
A obra maior de Câmara Cascudo é o Dicionário do Folclore Brasileiro, publicado em 1954, até hoje o ponto de partida de quem estuda o assunto no país. Antes dele já havia publicado Lendas Brasileiras, em 1945, Contos Tradicionais do Brasil, em 1946, e Geografia dos Mitos Brasileiros, em 1947 — uma sequência de livros que, juntos, funcionam como inventário do que hoje se chama patrimônio imaterial.
Um inventário do que hoje é patrimônio imaterial
É de Câmara Cascudo o registro escrito de manifestações como a folia de reis, a congada, o bumba meu boi e o reisado, além da figura do saci e das histórias de Trancoso. Grande parte do que se sabe hoje sobre essas tradições, com contexto e variações regionais, vem do trabalho de mapeamento que ele fez sozinho, décadas antes de universidades brasileiras terem programas de pesquisa voltados à cultura popular.
Vale registrar uma diferença que costuma gerar confusão: o Dia do Folclore no Brasil é comemorado em outra data do calendário, não em 30 de julho. A data de 30 de julho marca especificamente a morte de Câmara Cascudo, não a celebração nacional do folclore como tema — são duas efemérides distintas, e tratá-las como se fossem a mesma coisa é um erro comum em textos apressados sobre o assunto.
Gancho capixaba: festas de padroeiro no interior do Espírito Santo
Para um portal capixaba o gancho é direto: quase toda festa de padroeiro, folia e romaria do interior do Espírito Santo tem verbete ou parente próximo dentro do dicionário organizado por Câmara Cascudo. Quem cresceu vendo a folia de reis passar de casa em casa em dezembro, ou participou de festejo de padroeiro numa cidade pequena do estado, está diante de uma manifestação que ele catalogou, comparou com equivalentes de outras regiões do país e ajudou a preservar por escrito antes que a memória oral se perdesse com o tempo.
É esse o motivo de trinta de julho continuar valendo matéria quarenta anos depois da morte dele: o material que ele deixou segue sendo usado como referência de partida, mesmo por quem organiza uma festa de padroeiro no interior sem nunca ter ouvido falar do nome do pesquisador que primeiro descreveu aquela tradição em livro. É um tipo raro de legado — o de quem vira rodapé de toda festa popular do país sem que ninguém precise citar a fonte para a tradição continuar viva.
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