
24 de novembro é a data em que o calendário romano celebra a memória de Santo André Dung-Lac, presbítero, e de mais 116 companheiros mártires mortos em perseguições no Vietnã. É também a data que exige uma correção: várias páginas brasileiras de “santo do dia” erram o ano da canonização, e vale mostrar aqui qual é o certo antes que o erro se repita mais uma vez.
Quem foi Santo André Dung-Lac
André Dung-Lac era filho de família pobre, ordenado padre em 1823, e foi decapitado em 21 de dezembro de 1839. Dá nome ao grupo de mártires por ser o mais conhecido deles, não por ter sido o único ou o principal em hierarquia dentro da Igreja local — a escolha do nome que batiza o conjunto costuma seguir esse critério de reconhecimento popular, não uma ordem de importância eclesiástica formal.
O grupo é formado por 117 pessoas — 8 bispos, 50 sacerdotes e 59 leigos — sendo 96 vietnamitas, 11 espanhóis e 10 franceses. A composição mostra que a perseguição não poupava nem clero estrangeiro vindo em missão nem fiéis leigos vietnamitas que simplesmente professavam a fé cristã dentro de suas próprias comunidades.
117 mártires em mais de um século de perseguição
Esses 117 mártires morreram em perseguições no Vietnã entre o século XVIII e 1862, período em que 53 éditos contra cristãos foram assinados nas regiões do Tonquim, Anam e Cochinchina. Não se trata, portanto, de um único episódio de violência concentrado num só dia, mas de mais de um século de perseguições sucessivas, com diferentes governantes locais assinando ordens contra a presença cristã naquela região do sudeste asiático.
O número de éditos — 53 ao longo de mais de cem anos — dá ideia da persistência da perseguição: não foi decisão isolada de um único governante, mas política repetida por sucessivas administrações locais ao longo de gerações inteiras de cristãos vietnamitas e missionários estrangeiros.
A canonização foi em 1988, não em 1990
Aqui vai a correção: páginas brasileiras de “santo do dia” costumam informar que a canonização desse grupo ocorreu em 1990. Não ocorreu. Os 117 mártires do Vietnã foram canonizados em 19 de junho de 1988, na Praça de São Pedro, por João Paulo II — o maior número de canonizações conjuntas da história da Igreja até aquele momento. Quem copiar a data errada de terceiros vai publicá-la errada, e esse é exatamente o tipo de engano que se propaga de site em site sem que ninguém volte à fonte original para checar. A diferença de dois anos entre a data certa e a data errada pode parecer pequena, mas muda o contexto histórico em que o episódio é lido, e é justamente esse tipo de detalhe que separa uma matéria apurada de uma cópia repetida sem verificação.
Cinco grupos, meio século de beatificações
As beatificações foram fatiadas ao longo de meio século: Leão XIII em 1900, Pio X em 1906 e 1909, Pio XII em 1951, até que um decreto de 1986 reunisse os cinco grupos separados num só processo, que terminaria na canonização conjunta de 1988. Cada um desses papas reconheceu, em momentos separados por décadas, apenas parte do grupo total de mártires, o que explica por que a unificação final levou tanto tempo para acontecer. A data litúrgica de 24 de novembro cobre o conjunto inteiro dos 117, e não apenas Santo André Dung-Lac isoladamente — é uma memória pouco explorada em português, sem lei civil associada e sem concorrência com outras datas já publicadas neste mesmo calendário de 24 de novembro. Fica registrado o essencial para quem quiser voltar a essa data no futuro: 117 nomes, mais de um século de perseguição, cinco processos de beatificação separados e uma única canonização final, em 1988, que encerrou décadas de espera dentro da comunidade católica vietnamita.
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