Produção de café no Espírito Santo: números sem ano nem selo

Quando este texto foi publicado, em 24 de agosto de 2024, as visitas de quinta e de sexta-feira já tinham acontecido — e o texto ainda as anunciava no futuro. Uma comitiva formada por representantes da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil), da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS), da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa/RO) percorreu as regiões que respondem pela produção de café no Espírito Santo, de conilon e de arábica. A imersão começou na quinta-feira (22) e teve mais um dia de roteiro na sexta-feira (23).

Quem abriu as porteiras foi o Governo do Estado. A agenda saiu da Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) e teve como parceiro o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). O comunicado a apresenta como um item dentro do Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cafeicultura Capixaba — cujo conjunto de medidas ele não detalha — e resume o objetivo dos visitantes: olhar diversidade, qualidade e sustentabilidade, com o que se faz aqui servindo de parâmetro.

Quatro entidades num roteiro que o comunicado não fecha

O material oficial descreve o percurso por amostragem, não por lista. Ele registra passagem por propriedades, cooperativas e indústrias do ramo sempre no plural, precedidas de diversas, e nunca em número. Ao detalhar a quinta-feira, cita a Realcafé, indústria do solúvel, e fecha a frase com entre outras propriedades. As duas expressões abrem a relação e não a encerram: em nenhum ponto se sabe quantos imóveis, quantas cooperativas e quantas fábricas entraram no roteiro, nem quais foram as demais.

Na sexta-feira, o grupo foi a Venda Nova do Imigrante conhecer lavouras de arábica e o Centro de Cafés Especiais do Espírito Santo (Incaper), onde houve um cupping de cafés. O comunicado usa o termo e para por aí: não diz quantas amostras foram provadas, quem as avaliou, com que critério e qual foi o resultado. A programação encerrou com visita à Fazenda Camocim, em Pedra Azul, propriedade que o texto associa ao Jacu Bird Coffee.

Também não há explicação para a composição da comitiva. A unidade da Embrapa que aparece no texto é identificada apenas como Embrapa/RO, e o comunicado não diz o que ela veio fazer, o que observou nem se levará algo de volta. O mesmo vale para as duas associações da indústria: elas aparecem na lista de convidados e não voltam a ser citadas em nenhuma linha.

Quase 70% das propriedades rurais não é 70% da lavoura

A frase mais forte do comunicado é numérica: no Espírito Santo, a cafeicultura seria a principal atividade agrícola, com quase 70% das propriedades rurais dedicadas ao cultivo. Vale ler o substantivo colado ao número. O que está sendo contado são propriedades — imóveis rurais —, não área plantada, não produtores, não faturamento e não volume colhido.

São grandezas que não se convertem umas nas outras. Uma propriedade pequena e uma grande contam igual nessa conta, e o texto não informa o tamanho médio delas nem quantos hectares a cultura ocupa. Quem lê rápido guarda que o café responde por quase 70% da agricultura capixaba; o que o comunicado sustenta é que ele está presente em quase 70% dos imóveis rurais. E o advérbio importa: o texto oficial escreve quase 70%, o que deixa o número abaixo dessa marca, não nela.

A produção de café no Espírito Santo, sem um ano declarado

Os outros dois números do comunicado vêm com marcadores de mínimo. A produção capixaba supera 10 milhões de sacas anualmente e é exportada para mais de 100 países. As duas expressões estabelecem um ponto de partida e deixam o valor real em aberto: pode ser 10,1 milhões ou muito mais, e o texto não escolhe.

Falta, porém, algo mais básico que a precisão: nenhum dos dois números vem com o período a que se refere. Não há safra declarada, não há ano-calendário, não há indicação de que se trate de média de uma série. O mesmo silêncio atinge as duas classificações que o comunicado apresenta como identidade do Estado — segundo maior produtor de café do Brasil e primeiro produtor de conilon. Sem o ano, não é possível saber se os dados são da colheita mais recente, da anterior ou de uma estimativa em curso, e qualquer comparação com outro momento fica impossível de fazer.

Há ainda uma emenda a desfazer. O comunicado escreve que essa produção expressiva é exportada para mais de 100 países, encostando o volume total no destino externo. Ele não informa quanto da colheita capixaba vai para fora e quanto abastece o mercado interno — e o próprio roteiro da comitiva inclui uma indústria nacional de café solúvel, que compra grão no país.

Sustentável é o nome do programa, não a descrição da lavoura

O adjetivo aparece o tempo todo: práticas sustentáveis, produção sustentável, sustentabilidade em cada etapa, processos de produção sustentáveis. Ele também é a palavra do meio do nome do programa estadual que organiza a agenda. E é aí que a palavra tem origem verificável — ela batiza uma política pública, e o comunicado não a converte em descrição do que acontece na lavoura.

A conferência é simples e o resultado é o mesmo em todas as linhas. Em nenhum ponto o material nomeia uma prática agrícola: nada sobre manejo de solo, sombreamento, cobertura vegetal, uso de água, tratamento de resíduo da lavagem do grão, redução de defensivo, energia, mão de obra ou destino de embalagem. Não há certificação citada, nem selo, nem norma técnica, nem programa de conformidade. Não há auditoria de terceiro, nem verificador independente, nem relatório público. E não há um único indicador ambiental medido — nenhum número de área preservada, consumo de água, emissão, resíduo ou insumo.

O que sustenta o rótulo, no material, é a palavra de quem o emprega. O comunicado é da própria secretaria estadual que criou o programa e organizou a visita, e as falas reproduzidas são de autoridades e de dirigentes do setor. Isso não desmente nada do que dizem; apenas significa que o adjetivo ambiental do texto é declaração de parte interessada, e não constatação de alguém de fora. A rastreabilidade, mencionada uma vez, aparece como qualidade a exibir, sem que se diga qual sistema a garante ou até que ponto da cadeia ela alcança.

Da fala do secretário saiu a manchete que ficou dois anos no ar

O título publicado em 2024 dizia que o Espírito Santo mostrava a força da cafeicultura sustentável. A palavra não foi inventada: ela está no material, dentro de aspas, na avaliação do secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, que trata os cafés do Estado como demonstração de que dá para ter, ao mesmo tempo, qualidade, cuidado ambiental e sabor.

Com um olhar atento à sustentabilidade em cada etapa da produção, o Espírito Santo demonstra ao mundo a força e a qualidade da cafeicultura capixaba, e posiciona o estado como um dos principais produtores de café de qualidade e referência em produção sustentável

Quem assina a frase é o secretário. O que o título fez foi retirar as aspas e a atribuição e publicar a avaliação como se fosse constatação do jornal — e nenhum dado do comunicado mede essa força, nem contra outro estado, nem contra outro ano.

Para o subsecretário de Desenvolvimento Rural, Michel Tesch, a presença dessas entidades sinaliza que o governo quer robustecer a cadeia e empurrar as vendas do café capixaba para fora — e o programa estadual conversaria com o que os compradores pedem.

O nosso café tem entrado muito bem nos principais mercados do mundo e isso conecta muito com o nosso programa, o nosso planejamento estratégico. Uma das principais vertentes do nosso programa, que é a sustentabilidade, é a pauta dos principais mercados mundiais

Presidente do Cecafé, Márcio Ferreira falou da parceria entre poder público e iniciativa privada e apostou que o conilon deve ganhar valor lá fora. A avaliação dele coube numa frase de vitrine.

Aqui está a vitrine da produção, produtividade, sustentabilidade e rastreabilidade, que é o que o mundo quer e é o que a gente tem de melhor

Vale registrar que essa fala e o dirigente que a pronunciou nunca chegaram ao portal: os dois parágrafos em que ele aparece existem na página oficial e sumiram na versão copiada. Neles está também a única menção do material inteiro à palavra produtividade — e ela vem sem nenhum número que a acompanhe.

O quarto a falar foi Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, que apresentou a viagem como busca de um método a repetir noutras regiões.

O Espírito Santo é um exemplo de sucesso na produção de café, tanto do tipo arábica quanto conilon. Queremos entender os fatores que contribuíram para esse sucesso e replicar essa experiência em outras regiões do país

Renda, área e preço: as grandezas que o comunicado não traz

O texto oficial afirma que a lavoura de café emprega e sustenta milhares de famílias capixabas, e passa ao largo das duas: nenhuma delas vem com número. Não há contagem de empregos, de produtores, de trabalhadores na colheita ou de famílias. Não há renda média, preço pago ao produtor, receita de exportação em reais ou em dólares, custo de produção nem produtividade por hectare. Não há área plantada. Não há série histórica de nada.

Sobre o programa que dá nome à agenda, o material também é econômico: não informa quando ele foi criado, qual é o orçamento, quais são as metas, quantos produtores alcança, que ações já foram executadas e quem avalia o resultado. A visita é apresentada como parte de uma série de ações, e as outras não são listadas. Em textos assim, o que se mede é a agenda cumprida, não o efeito sobre quem planta.

Para quem quer acompanhar o que o Estado de fato movimenta na produção rural capixaba, os anúncios com número costumam estar em outras frentes: meses depois desta visita, a rede estadual divulgou a fatia do dinheiro da alimentação escolar que foi para a agricultura familiar, num balanço posterior a esta agenda; e a mesma secretaria que organizou a imersão passou a divulgar, em anos seguintes, o resultado de um programa seu voltado à agroindústria, com relação de aprovados. Os dois vieram depois desta agenda de agosto e nada têm a ver com ela; entram aqui pelo contraste, porque trazem critério, prazo e número.

O que a página oficial mudou depois que este post foi copiado

A comparação entre o texto que ficou no portal e a página de origem consultada hoje mostra que os dois não são iguais, e a diferença é de tempo verbal e de desfecho.

  • A versão publicada aqui dizia que o grupo seguiria para Venda Nova do Imigrante e que ali seria realizado o cupping. A página oficial hoje relata as duas coisas no passado.
  • A versão publicada aqui afirmava que a programação terminaria no domingo, com a visita à Fazenda Camocim. A página oficial hoje encerra o roteiro nessa visita e não menciona domingo.
  • A versão publicada aqui nomeava uma propriedade de conilon visitada em Aracruz e o produtor dono dela. A página oficial hoje escreve, no lugar, que houve visita a outras propriedades — sem o município e sem o nome.
  • Dois parágrafos inteiros da página oficial, com o presidente do Cecafé e a fala sobre a vitrine, nunca apareceram no portal.

Nenhuma dessas diferenças é correção de fato: são versões de momentos distintos do mesmo comunicado, uma copiada durante a agenda e outra revista depois dela. Ficam aqui as duas, porque um leitor que consultasse o portal e a origem encontraria textos diferentes e não saberia por quê. O nome do produtor rural saiu desta versão porque a própria origem o retirou, e não porque o dado tenha sido desmentido.

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