Três alunas do 9º ano do ensino fundamental da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Prof.ª Maria Trindade de Oliveira, em Ibatiba, desenvolveram o aplicativo de um sistema de automação residencial — o tipo de sistema que liga e desliga aparelhos da casa pelo celular. Pela descrição oficial, o conjunto permite controlar dispositivos eletrônicos, entre eles lâmpadas, por conexão Bluetooth. O registro é de 8 de setembro de 2024, e o material divulgado na época não teve continuidade: nada nele diz o que aconteceu com o aplicativo depois daquele dia.
Vale reparar em como a lista de aparelhos é apresentada. O texto oficial fala em lâmpadas e outros aparelhos — a expressão abre a lista sem fechá-la. Quantos dispositivos o sistema chega a comandar, quais são eles e se a lâmpada era um exemplo entre vários ou o único caso testado, o comunicado não diz.
Quem o comunicado credita pelo aplicativo
Em notícia de escola, o crédito de um trabalho escorrega com facilidade. Basta a frase virar passiva — foi desenvolvido, foi criado — para o sujeito sumir e a autoria ficar no ar, geralmente colada em quem coordenou. Não é o que acontece aqui, e a diferença precisa ser dita com todas as letras: o comunicado põe as estudantes como sujeito do verbo e escreve que elas desenvolveram o aplicativo. Quem programou e montou, segundo o material, foram elas.
O professor responsável pelo projeto reforça esse ponto ao falar do resultado, e é ele quem usa a palavra que fixa a autoria: o trabalho que as alunas realizaram no desenvolvimento do aplicativo.
“Estou muito orgulhoso do trabalho que nossas alunas realizaram no desenvolvimento deste aplicativo de automação residencial. Este projeto não só permitiu que elas aplicassem conceitos teóricos em um contexto real, mas também as desafiou a enfrentar problemas técnicos e a colaborar de forma eficaz. Foi gratificante ver como a teoria se transformou em prática e como elas aprimoraram suas habilidades técnicas e interpessoais. O entusiasmo e a criatividade demonstrados ao longo do projeto foram notáveis, e estou confiante de que essa experiência prática as preparou bem para futuros desafios acadêmicos e profissionais”
Edilson Marculino de Souza, apresentado como o professor responsável pelo projeto, escreveu isso no balanço que a rede estadual de ensino divulgou sobre a atividade.
Arduino, módulo Bluetooth e mais nada
A única passagem do material que descreve como o sistema foi montado não vem do professor nem da narração oficial: está na fala de uma das três autoras do aplicativo, que conta ter trabalhado na criação do programa e na ligação entre a placa e o módulo de comunicação.
“Estou muito feliz com o resultado do nosso projeto de automação residencial. Trabalhar com a criação do aplicativo e integrar o Arduino com o módulo Bluetooth foi uma experiência incrível e desafiadora. Aprendi muito sobre programação e eletrônica, e tive a oportunidade de aplicar a teoria que estudamos em um projeto real. O trabalho em equipe foi essencial, e foi ótimo ver como conseguimos resolver problemas e implementar soluções criativas juntos”
Traduzindo o que essa frase carrega: o Arduino é uma placa pequena e programável, do tamanho aproximado de um cartão, que recebe instruções e aciona circuitos — o contato que fecha uma lâmpada, por exemplo. O módulo Bluetooth é a peça que faz essa placa conversar com o celular. A escolha do Bluetooth tem consequências práticas que a nota não comenta: a conexão funciona sem internet, o que barateia e simplifica o projeto, mas só alcança poucos metros. Quem sai de casa não controla nada — e é justamente aí que entram os sistemas comerciais, que trocam o Bluetooth por uma conexão de rede sem fio ligada à internet, o que permite comando a distância. Um projeto de 9º ano que resolve a parte do rádio curto está fazendo exatamente o que a etapa pede.
Objetivos de aula onde deveria haver resultado
O segundo parágrafo do comunicado não conta o que aconteceu: lista o que a atividade pretendia. Levar para a bancada o que se estudou de eletrônica e de criação de software; ganhar prática em escrever código, desenhar as telas por onde a pessoa comanda o sistema e casar a parte física com a digital; e puxar a criatividade diante de um problema. São verbos de plano de aula, escritos antes da aula — e a mesma frase reaparece, palavra por palavra, na legenda da foto que acompanhava o texto original.
Falta o outro lado da conta. O material não apresenta um único indicador do que a atividade produziu: nenhuma avaliação, nenhuma medida de aprendizagem, nenhum registro de uso do aplicativo fora da sala. Ele também troca o sujeito no meio do caminho — o resultado é de três meninas, e os objetivos são escritos para os alunos, no masculino genérico, como se valessem para a escola inteira.
Um aplicativo que ninguém diz onde encontrar
É aqui que o material fica mais devendo, e a falta pesa num texto que anuncia um produto pronto. O comunicado não informa endereço nenhum — não há loja de aplicativos, página, repositório de código nem sequer uma menção a onde o programa poderia ser visto. Sem endereço divulgado não há o que conferir: não se trata de um link que deixou de abrir, e sim de um link que nunca chegou a existir no texto.
Some-se a isso o que o comunicado deixa sem resposta:
- em que linguagem ou ferramenta o aplicativo foi escrito, e quanto tempo o trabalho levou;
- se o sistema continuou funcionando depois da apresentação, ou se ficou na bancada da escola;
- quantos aparelhos o conjunto chega a controlar, além da lâmpada citada como exemplo;
- se o projeto foi inscrito em feira, mostra ou concurso, e se houve etapa seguinte — o texto simplesmente não trata disso, e calar não é o mesmo que negar;
- quantas pessoas participaram ao todo: o material nomeia três estudantes e um professor, e a fala citada menciona equipe sem dizer quem mais a compunha;
- se a atividade nasceu da escola ou faz parte de alguma política da rede — não há verba, meta, calendário comum nem nome de programa em nenhum ponto do comunicado. Pelo que está escrito, é iniciativa da unidade.
Os nomes das três alunas ficaram de fora, o do professor não
O comunicado oficial abre com os nomes completos das três estudantes. Aqui eles não aparecem, e quem decidiu suprimi-los foi a redação — a informação estava disponível. O motivo é de tamanho de grupo: o nome inteiro de uma adolescente, colado ao ano escolar e ao endereço da escola, deixa de ser texto e vira resultado permanente de busca sobre alguém que ainda está estudando. Uma página de notícia dura mais que o ensino fundamental. E a notícia não perde nada com a troca: o fato é que três estudantes de uma turma de 9º ano fizeram o aplicativo, e o texto diz exatamente isso.
Com o professor o critério muda. Ele aparece no material como o profissional encarregado da atividade, foi quem a conduziu e é quem assina em público a avaliação do que saiu dela — por isso o nome fica.
Outros aplicativos escolares vieram depois deste
O aplicativo de Ibatiba não ficou isolado no calendário. Dois meses mais tarde, em novembro de 2024, o portal registrou outro projeto escolar de aplicativo, na Serra, voltado ao comércio da região — episódio posterior e sem ligação com o de Ibatiba. Já em 2025 apareceram uma eletiva de robótica do ensino fundamental que montou um braço mecânico e um aplicativo escolar de acessibilidade levado a uma feira de ciências, ambos bem depois desta atividade. Os quatro registros, na ordem do calendário, mostram uma sequência de projetos parecidos — não uma política única que os tenha organizado, porque nenhum dos comunicados descreve coordenação entre eles.
O que sobra deste 8 de setembro de 2024, então, é o registro de uma atividade escolar bem-sucedida dentro da sala: três alunas do 9º ano escreveram um aplicativo, ligaram uma placa Arduino a um módulo Bluetooth e acenderam uma lâmpada pelo celular. O passo que transformaria isso em algo utilizável por qualquer pessoa — publicar o aplicativo, documentar o circuito, dizer onde encontrá-lo — nunca chegou a ser anunciado.
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