As cerimônias de abertura dos Jogos Escolares do Espírito Santo de 2025 ocuparam dois municípios ao mesmo tempo, Iúna e Ponto Belo, na segunda-feira (05) de maio daquele ano, e reuniram cerca de 1.600 estudantes. A edição descrita aqui se encerrou há mais de um ano: este texto a registra, não a anuncia. E há um dado que o comunicado oficial resolve em uma linha, mas que é o que mais interessa a quem mora em Guarapari — a etapa final estadual estava marcada para o Sesc do município.
O comunicado que deu origem a este post foi divulgado pelo governo estadual e para no dia da abertura. Ele descreve a solenidade, não a competição: não há placar, não há campeão e não há uma única modalidade coletiva chamada pelo nome. O que dá para reconstruir, com o que o material sustenta, é o desenho da disputa — quem entrava, por qual categoria, em que sede e o que vinha depois.
Duas sedes, dois recortes e um total que ninguém fecha
Em Iúna, a abertura reuniu 560 alunos de sete municípios — Alegre, Dores do Rio Preto, Guaçuí, Ibatiba, Irupi, Muniz Freire e a própria Iúna —, distribuídos em 40 equipes. Em Ponto Belo, o recorte era maior: 1.064 atletas de oito cidades — Boa Esperança, Conceição da Barra, Jaguaré, Montanha, Mucurici, Pedro Canário, Pinheiros e São Mateus —, formando 76 times. Nos dois casos, a relação de nomes divulgada bate com o total que o próprio texto declara.
Aqui entra a leitura que o comunicado não faz por você. Nenhum dos três números grandes do texto se refere ao mesmo conjunto de pessoas. Os cerca de 1.600 são estudantes que estiveram nas cerimônias; os 560 aparecem como alunos; os 1.064, como atletas. Estar numa solenidade de abertura e entrar em quadra são situações diferentes. O material não diz quantas pessoas distintas competiam ao todo, não diz se quem foi à cerimônia é quem ia disputar, e encaixar os totais das duas sedes dentro do arredondamento de 1.600 seria uma conta que ninguém no texto oficial fez.
No infantil joga a escola; no juvenil, o município
A competição é organizada pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Esportes e Lazer (Sesport), e recebe estudantes das redes pública e privada em duas categorias: infantil, de 12 a 14 anos, e juvenil, de 15 a 17 anos.
A diferença entre elas não é só de idade, e muda o que acontece com o estudante. No infantil, as equipes se formam dentro da própria instituição de ensino — quem joga, joga pela escola onde estuda. No juvenil, cada município monta uma seleção, o que significa que o adolescente pode ser chamado a jogar ao lado de colegas de outras escolas da cidade, sob organização municipal. Quem vencesse a etapa regional garantia vaga na fase final estadual, no Sesc de Guarapari, que o comunicado apresenta como palco tradicional das decisões.
Competição esportiva escolar no Estado não corre sem regra de conduta própria: desde julho de 2024 existe um protocolo para casos de racismo e de outros atos discriminatórios em competição esportiva escolar, que prevê desde a interrupção da partida até a proibição de jogar. O comunicado dos Jogos não menciona esse nem qualquer outro procedimento disciplinar.
A régua das fases: o que tinha acontecido e o que ainda era calendário
Comunicado de evento mistura, no mesmo parágrafo, o que já ocorreu e o que ainda era papel. Separando:
- Já tinha acontecido: as duas cerimônias de abertura, em Iúna e em Ponto Belo.
- Estava marcado, sem data fechada: as disputas coletivas das regionais e a etapa final estadual no Sesc de Guarapari — o material não dá dia para nenhuma das duas.
- Estava marcado só por mês: as 15 modalidades individuais, em etapa única, com provas previstas para junho.
- Era etapa seguinte e condicionada: as fases nacionais, reservadas a quem fosse campeão estadual.
- Era mudança de regulamento anunciada: o retorno do futsal à programação dos Jogos da Juventude, depois de duas edições fora.
Nada disso vem com desfecho. O texto oficial encerra no dia da abertura e não registra quem venceu qualquer uma das etapas. Isso não é o mesmo que dizer que as etapas não aconteceram — é dizer que a divulgação nunca voltou para contar. Também não é a primeira vez: outra competição divulgada pela mesma secretaria, em setembro de 2024, teve o aviso oficial publicado depois do encerramento, sem placar e sem campeão.
Quinze modalidades individuais, e nenhuma com nome
O algarismo 15 aparece duas vezes no comunicado, com sentidos que não se comunicam: é a idade mínima da categoria juvenil e é a quantidade de modalidades individuais previstas. Nenhuma dessas modalidades é nomeada, e o texto tampouco informa quantas modalidades coletivas existiam ou quais eram. A única modalidade que o leitor descobre pelo nome, no material inteiro, é o futsal — e ainda assim de raspão, porque ela aparece na explicação sobre a competição nacional, não sobre a disputa capixaba.
Para quem tem filho na rede, é uma lacuna prática: sem a lista das modalidades, não dá para saber se o esporte que a criança pratica estava em disputa, nem em que categoria ela entraria.
Onde Guarapari aparece nos Jogos Escolares do Espírito Santo
Guarapari aparece uma vez no material, e como sede: é onde a etapa final estadual estava marcada. A cidade não consta das relações de municípios das duas aberturas descritas — nem na de Iúna, nem na de Ponto Belo. Isso, porém, não quer dizer que escolas de Guarapari estivessem fora dos Jogos: o comunicado descreve duas regionais e nunca informa quantas existiam ao todo nem quais eram as outras. Sobre a participação da cidade na disputa, o material não diz nada, em nenhum sentido.
Nenhuma cifra no texto, e a conta do deslocamento sem responsável
Não há uma cifra sequer no comunicado — nem orçamento da competição, nem custo por etapa, nem valor de patrocínio. E o próprio formato da disputa levanta uma pergunta que o texto não responde: delegações de sete municípios se deslocaram até Iúna, de oito até Ponto Belo, e os classificados teriam de chegar depois a Guarapari. Transporte, alojamento e alimentação de estudantes menores de idade, em viagem intermunicipal, custam dinheiro e exigem responsável. O material não informa se a conta é do Estado, da prefeitura, da escola ou da família — e é justamente o dado que falta a quem precisa decidir se o filho pode ir.
Custeio de viagem, na mesma secretaria, existe — mas em outro programa e para outro público: um edital que paga passagem aérea a esportistas de alto rendimento, com resultado preliminar divulgado em dezembro de 2024, sem relação com o deslocamento de delegação escolar.
Depois do Estado: Brasília em setembro, Uberlândia em outubro
Os campeões capixabas passavam a representar o Estado em duas competições nacionais distintas, uma para cada categoria. O juvenil iria a Brasília (DF), em setembro, para os Jogos da Juventude, organizados pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB). O infantil iria a Uberlândia (MG), em outubro, para os Jogos Escolares Brasileiros (Jeb’s), realizados pela Confederação Brasileira do Desporto Escolar (CBDE). Nenhuma das duas viagens vem com dia no material — só com o mês.
A novidade de regulamento estava nos Jogos da Juventude: o futsal voltou à programação depois de duas edições ausente, de modo que os campeões estaduais da modalidade também iriam a Brasília, junto com as demais. Quem foi e como se saiu não está neste material.
Onde estavam o calendário e as tabelas — e o que o endereço mostra hoje
O comunicado oferecia dois caminhos ao leitor: um endereço da secretaria estadual de esportes, onde estariam a grade de datas inteira e as tabelas de cada regional, e o perfil @sesportesoficial, no Instagram, para acompanhar os resultados.
Conferido em agosto de 2026, o endereço continua no ar, no mesmo site oficial e sob o mesmo responsável. Mas o arquivo publicado ali agora é o calendário de uma edição posterior, atualizado em 2026: o calendário e as tabelas de 2025, que a frase do comunicado prometia, saíram da página. Quem clicar hoje encontra a competição seguinte, não a que este texto descreve — a página de calendário dos Jogos Escolares mantida pela secretaria estadual de esportes segue funcionando, e o que ficou para trás foi o conteúdo que ela guardava, não o endereço.
Quantas escolas? O comunicado não diz — e essa não é a única lacuna
- Quantas escolas participavam. O texto conta equipes, times, alunos e atletas, e em nenhum momento conta instituições de ensino.
- Quais e quantas eram as modalidades coletivas, que são o miolo da disputa regional.
- Quantas etapas regionais existiam além das duas abertas naquele dia, e em que municípios.
- As datas das provas individuais (só o mês de junho), da final estadual em Guarapari (nenhuma) e dos torneios nacionais (só setembro e outubro).
- Quem custeia transporte, alojamento e alimentação das delegações.
- Como uma escola se inscreve, em que prazo e por qual canal.
- O resultado de qualquer uma das fases, da regional à nacional.
Um comunicado escrito pela própria organizadora
Vale registrar de onde vem o material: quem divulgou o texto é o governo estadual, por meio da secretaria que organiza a competição. Emissor e organizador são o mesmo, e isso decide o que entra e o que fica de fora. No comunicado não fala nenhuma escola, nenhum professor de educação física, nenhuma família e nenhum estudante — não há, no material, avaliação de quem esteja do lado de fora da organização.
A justificativa oferecida para os Jogos é a de que eles revelam talento. Quem apresentou o argumento foi o secretário de Estado de Esportes e Lazer, José Carlos Nunes, ao falar na abertura: citou cinco esportistas que representaram o Estado nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 — o velocista Paulo André Camilo, o jogador de basquete Didi Louzada, as ginastas Déborah Medrado e Sofia Madeira e a handebolista Ana Cláudia Bolzan — como exemplos de quem teria dado os primeiros passos na competição escolar. O material não informa em que edição, por qual município ou em que modalidade qualquer um deles passou pelos Jogos, e não traz levantamento algum sobre o caminho entre a disputa escolar e o esporte de alto rendimento.
É a distância entre o que a competição faz e o que se diz sobre ela. O que o comunicado documenta são cerimônias, sedes, categorias e contagens de equipes. O resto — quem chegou onde, quanto custou e o que sobrou para quem participou — a divulgação oficial dos Jogos Escolares do Espírito Santo de 2025 nunca contou.
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