O Governo do Estado entregou, na manhã do sábado (08) de março de 2025, o trecho de 25,30 quilômetros da rodovia ES-080 que vai de Água Doce do Norte até Três Vendas, distrito de Barra de São Francisco, na microrregião Noroeste do Espírito Santo. O material oficial informa R$ 98 milhões aplicados e descreve todos os serviços no passado: é obra concluída e entregue, e não ordem de serviço assinada nem promessa de investimento futuro. A execução foi do Departamento de Edificações e de Rodovias (DER-ES).
Item por item: o que estava pronto e o que não estava
Solenidade de inauguração raramente cobre coisas do mesmo tamanho. É comum um único evento juntar obra pronta, obra em andamento, autorização para começar, edital ainda em disputa, dinheiro apenas repassado e projeto só anunciado — estágios que valem coisas muito diferentes para quem usa a via. Por isso vale ler a relação de serviços uma linha de cada vez, com o verbo que o órgão escolheu para cada uma.
Feita a conferência, o resultado deste release é incomum e merece ser dito ao leitor: todos os itens estão no mesmo estágio, o de entrega. Não há nenhum serviço no futuro, nenhuma ordem de serviço assinada no dia e nenhum repasse anunciado misturado à lista.
- Entregue. Pavimentação em pista simples, com duas faixas de rolamento de 3,50 m e acostamento de 1,50 m.
- Entregue. Terraplenagem, com alargamento da plataforma da estrada.
- Entregue. Drenagem subterrânea e superficial.
- Entregue. Sinalização vertical e horizontal em todo o trecho.
- Entregue. Revitalização de três pontes: sobre o Rio Cricaré, sobre o Rio Preto e sobre o Córrego Água Doce.
- Entregue. Retornos e acessos às indústrias da região.
- Entregue. Faixa multiuso de 1,50 m e acostamento de 1,00 no segmento de 3,44 quilômetros entre a comunidade Governador Lacerda de Aguiar e Água Doce do Norte. A medida do acostamento aparece no material sem unidade declarada, e ela não foi completada aqui.
- Entregue. 74 acessos do tipo Limpa Rodas.
- Entregue. Oito abrigos para parada de ônibus.
Um detalhe da própria descrição oficial evita mal-entendido: a ES-080 foi refeita em pista simples, com duas faixas de rolamento. Ou seja, o trecho foi refeito e alargado, mas não foi duplicado — não passou a ter pistas separadas por sentido.
A lista de serviços da rodovia ES-080 não fecha
O texto oficial diz que as intervenções incluíram os serviços relacionados. O verbo é de amostra, não de fechamento: ele admite que possa haver serviço executado e não listado. Por isso os itens acima não devem ser contados como o total da obra — o órgão não afirma que são todos, e contar por conta própria seria criar um número que ninguém publicou.
Por que este texto não traz um total de quilômetros nem um total de dinheiro
Há duas extensões no mesmo release. Uma é a do trecho principal, de 25,30 quilômetros. A outra é a do segmento entre a comunidade Governador Lacerda de Aguiar e Água Doce do Norte, de 3,44 quilômetros, onde entraram a faixa multiuso e o acostamento. O material não diz se esses 3,44 quilômetros estão dentro ou fora dos 25,30. Somar os dois produziria um total que o órgão nunca publicou, e que pode contar duas vezes o mesmo asfalto.
Com o dinheiro acontece coisa parecida, por outro motivo. Os R$ 98 milhões aparecem duas vezes: na abertura, ligados ao trecho de 25,30 quilômetros, e mais adiante, ligados à relação de serviços. É o mesmo valor, repetido, e não dois investimentos. Quem lê corrido pode sair contando o dobro do que foi aplicado.
Também não existe custo item a item. Nenhum dos serviços da lista tem valor próprio no material: não dá para saber quanto custou a recuperação das pontes, quanto custou a drenagem ou quanto custaram os oito abrigos de ônibus. O que existe é uma cifra global, e ela responde por tudo de uma vez.
Vale ainda separar três nomes parecidos que aparecem no mesmo texto e podem virar um só na leitura apressada: Água Doce do Norte é o município; o Córrego Água Doce é o curso de água de uma das três pontes revitalizadas; e Governador Lacerda de Aguiar é a comunidade do segmento de 3,44 quilômetros. E Três Vendas não é um município: é distrito de Barra de São Francisco, o que faz do trecho uma ligação entre duas cidades da mesma microrregião.
Quem executou, quem pagou e o que ficou em aberto
A execução tem dono declarado: o DER-ES. O pagamento, não. O release usa a forma impessoal — o dinheiro foi investido, sem sujeito — e em nenhum momento informa a origem do recurso: se saiu do orçamento estadual, se houve financiamento, se entrou repasse de fora ou se os municípios aportaram alguma contrapartida.
A distinção não é detalhe burocrático. Na solenidade, o governador Renato Casagrande atribuiu o resultado à parceria entre o Governo do Estado e os municípios, mas o material não quantifica participação municipal nenhuma — nem em dinheiro, nem em serviço, nem em desapropriação. Quem entrega, quem executa e quem financia podem ser três coisas diferentes, e aqui só as duas primeiras estão nomeadas. A empresa contratada para tocar a obra e o número do contrato também não aparecem.
Nenhum número de tráfego: por que não dá para medir o ganho
O release não traz volume de veículos na ES-080, número de caminhões, população atendida, tempo de viagem nem qualquer medição de antes e depois. Sem isso, não é possível dizer quanto a região ganhou em números — e é importante lembrar que a estrada já existia e já era usada. O que houve foi reabilitação de uma via em operação, não abertura de caminho novo, de modo que ninguém passou a ser atendido por uma ligação que não tinha.
O que existe sobre o efeito da obra é avaliação das autoridades presentes. O governador falou sobre a função da via na região:
Uma via fundamental no apoio ao escoamento da produção agrícola e também aproximando a população da região
A avaliação é do governador do Estado, Renato Casagrande, que percorreu os dois municípios no dia da entrega.
Dois superlativos que o material afirma sem dizer de onde vieram
O texto oficial registra que o Espírito Santo tem a segunda melhor infraestrutura viária do País, atrás apenas de São Paulo, onde parte das rodovias é privatizada. E a fala do governador acrescenta um segundo posto:
Para que o Espírito Santo pudesse chegar a esse nível foi preciso ter um Estado organizado e com um bom nível de parceria com os municípios. Nos últimos dois anos, o Espírito Santo foi o estado que mais investiu em infraestrutura em relação à receita corrente líquida
A declaração é do governador Renato Casagrande, durante a solenidade. São duas classificações — a segunda melhor malha e o maior investidor proporcional — e o material não indica qual levantamento, qual órgão ou qual período de apuração as sustenta. Ficam registradas como afirmação do governo, não como dado verificado.
Uma explicação ajuda a entender a segunda: receita corrente líquida é a medida de arrecadação usada como régua nas contas públicas. Comparar o investimento com ela significa medir o esforço em proporção ao tamanho do caixa, e não em valor absoluto — por esse critério, um estado menor pode aparecer à frente de um estado que gasta mais reais.
O que a fonte não informa
- Prazo. Quando a obra começou, quanto tempo levou e se houve atraso em relação ao contrato.
- Origem do dinheiro. Orçamento próprio, financiamento, repasse ou contrapartida dos municípios.
- Custo por item. Nenhum serviço da lista tem valor individual.
- Executor privado. Nome da empresa contratada e número do contrato.
- Extensão total. Se os 3,44 quilômetros do segmento com faixa multiuso estão ou não dentro dos 25,30 quilômetros.
- Uso da via. Tráfego na rodovia ES-080, população atendida e qualquer comparação de antes e depois.
- Termos técnicos. O que é um acesso do tipo Limpa Rodas e o que é uma faixa multiuso, sendo que foram implantados 74 do primeiro.
- Transporte coletivo. Quantos abrigos de ônibus existiam antes dos oito implantados, e quais linhas passam pelo trecho.
- Pendências. Se restou algum serviço a concluir depois da entrega e se houve interdição ou desvio durante as obras.
Um lado só: o release é do governo que executa a obra
Todo o material de origem é do Governo do Estado, que executa a obra por meio do DER-ES. As três falas divulgadas são de autoridades do mesmo governo. A terceira é do diretor-geral do órgão executor:
As obras em Água Doce do Norte e na região vão possibilitar uma nova dinâmica no transporte de cargas e garantir mais segurança no deslocamento da população
A projeção é do diretor-geral do DER-ES, José Eustáquio de Freitas.
Não há no material uma única voz de fora do governo: nenhum morador dos dois municípios, nenhum motorista ou caminhoneiro que use o trecho, nenhum produtor rural da microrregião, nenhum especialista independente em infraestrutura viária e nenhum representante de oposição. Os parlamentares citados no texto — o deputado federal Paulo Foletto e o deputado estadual Mazinho dos Anjos — estavam na solenidade, assim como os prefeitos Abraão Lincon Elizeu, de Água Doce do Norte, e Enivaldo dos Anjos, de Barra de São Francisco, e os secretários de Estado Tyago Hoffmann (Saúde) e Maria Emanuela Alves Pedroso (Governo). Ausência de crítica num release oficial não é sinal de consenso: é característica do documento.
Entregas do mesmo tipo se repetiram no calendário estadual ao longo daquele ano. Dois meses e meio depois deste sábado no Noroeste, em 26 de maio de 2025, o Governo do Estado inaugurou a reabilitação de outra rodovia, em Conceição do Castelo — episódio posterior a este e independente dele, útil para comparar o que cada pacote de fato entregou.
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