
Oito de junho de 2024 foi a data do Imaculado Coração de Maria naquele ano, celebração móvel do calendário católico que muda de dia conforme a Páscoa. A conta daquele ano explica como a data se move: a Páscoa caiu em 31 de março; Pentecostes, cinquenta dias depois, em 19 de maio; o segundo domingo depois de Pentecostes, em 2 de junho; a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, na sexta-feira seguinte, em 7 de junho; e a memória do Imaculado Coração de Maria, no sábado imediato, em 8 de junho.
Uma devoção com raiz antiga
A devoção ao Coração de Maria tem raiz em passagens do evangelho de Lucas, em que Maria guarda e medita tudo no coração, mas ganhou forma de festa apenas com São João Eudes, que em 1648 obteve do bispo de Autun, na França, a aprovação da celebração. Roma foi cedendo aos poucos: o papa Pio VII autorizou a festa a dioceses e congregações que a pediam em 1805, e o papa Pio IX aprovou a missa e o ofício próprios em 1855, mais de dois séculos depois da primeira aprovação local.
O impulso decisivo veio de Fátima
O que deu força mundial à devoção foi Fátima. Na segunda aparição, em 13 de junho de 1917, os pastorinhos viram o coração cercado de espinhos e ouviram que Jesus queria estabelecer no mundo a devoção ao Coração Imaculado de sua mãe. Em 1925, em Pontevedra, veio o pedido dos cinco primeiros sábados, prática que se espalhou entre os devotos como forma de reparação.
Em plena Segunda Guerra, o papa Pio XII consagrou a Igreja e todo o gênero humano ao Coração Imaculado, numa radiomensagem aos fiéis portugueses em 31 de outubro de 1942, no jubileu de Fátima, e repetiu o ato solenemente em 8 de dezembro daquele mesmo ano. Poucos anos depois, estendeu a festa a toda a Igreja, consolidando uma devoção que, até então, tinha aprovação regional e não universal.
Imaculado Coração de Maria sem lei federal, como em todo calendário litúrgico
Não há lei federal a citar, e não haveria como haver: a data é móvel e depende da Páscoa, calculada por regras próprias da Igreja Católica que nada têm a ver com o calendário civil brasileiro. A busca no acervo da Presidência da República e na legislação da Câmara dos Deputados não localizou lei nem decreto sobre a celebração, como acontece em toda data de calendário litúrgico que não tenha sido incorporada por norma civil.
Por que a data acompanha o Sagrado Coração de Jesus
Com a reforma do calendário romano, a celebração do Imaculado Coração de Maria passou a acompanhar a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, sempre no sábado seguinte a ela, e por isso muda de dia todo ano, seguindo o mesmo cálculo móvel que define a Páscoa e o Pentecostes. É um dos vários exemplos do calendário católico em que uma data derivada, criada séculos depois da original, herda o mesmo mecanismo de cálculo e a mesma variação anual.
Essa proximidade entre as duas solenidades, a de Jesus e a de Maria, marcadas em dias consecutivos, reforça no calendário litúrgico o vínculo entre as duas devoções, nascidas em momentos diferentes da história da Igreja, mas unidas hoje pelo mesmo cálculo de datas móveis.
Uma devoção que atravessou séculos de aprovações parciais
Vale notar o ritmo lento dessa história: entre a primeira aprovação diocesana, obtida por São João Eudes em 1648, e a extensão da festa a toda a Igreja depois da Segunda Guerra, passaram-se quase três séculos. Nesse intervalo, a devoção ao Imaculado Coração de Maria foi crescendo por aprovações regionais e locais, até que os episódios de Fátima, no início do século 20, deram o impulso que faltava para torná-la universal.
É um padrão comum em devoções marianas: nascem de um pedido pontual, num lugar específico, e só se espalham por todo o mundo católico séculos depois, quando um evento de grande repercussão, como as aparições de Fátima, reacende o interesse e justifica a decisão papal de estender a celebração a todas as dioceses.
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