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14 de fevereiro é o dia de Cirilo e Metódio, copadroeiros da Europa

manuscrito antigo com letras desenhadas à mão sobre mesa de madeira
Foto: Magda Ehlers / Pexels

14 de fevereiro é a memória litúrgica de Cirilo e Metódio, dois irmãos gregos do século IX que a Igreja lembra como apóstolos dos eslavos e que, desde 1980, são copadroeiros de toda a Europa. A data não foi escolhida ao acaso: é o dia em que Cirilo morreu, em Roma, no ano de 869, longe da missão a que dedicou a vida.

Dois irmãos de Tessalônica na escola de Constantinopla

Eram irmãos, gregos, naturais de Tessalônica, a mesma cidade onde viveu e trabalhou São Paulo, e se formaram na escola patriarcal de Constantinopla. O mais novo foi batizado Constantino e ficou conhecido pelo epíteto de Filósofo; só perto da morte tomou o nome com que entrou para a história. Foi bibliotecário do arquivo anexo à igreja de Santa Sofia e secretário do Patriarca de Constantinopla, cargos de peso que largou para se refugiar num mosteiro à beira do Mar Negro, de onde saiu para ensinar filosofia na Escola Superior de Constantinopla.

Os dois escolheram o estado religioso e uniram a vida monástica ao trabalho missionário. Pregaram primeiro aos cazares da Crimeia e, em Kherson, recolheram relíquias que identificaram como as de São Clemente, papa e mártir, levadas mais tarde a Roma e entregues ao papa Adriano II.

Cirilo e Metódio e o alfabeto que fundou uma literatura

A obra maior dos dois foi a missão na Grande Morávia, entre povos das terras percorridas pelo Danúbio. Ela nasceu de um pedido do príncipe Ratislau ao imperador Miguel III: os eslavos tinham muitos mestres vindos da Itália, da Grécia e da Germânia, mandou dizer o príncipe, mas ninguém que os instruísse de modo compreensível. Os irmãos chegaram provavelmente em 863, e chegaram preparados.

Levavam consigo os textos da Sagrada Escritura necessários à liturgia já traduzidos em língua paleoeslava e escritos com um alfabeto novo, elaborado por Constantino Filósofo e ajustado à fonética daquele idioma. É esse o detalhe que faz deles muito mais do que missionários: a escrita inventada para poder rezar lançou as bases de toda a literatura das nações eslavas, e os primeiros escritos naquela língua nasceram dessa necessidade prática de traduzir a fé.

A liturgia na língua do povo, aprovada em Roma

Celebrar a liturgia na língua do povo era, no século IX, novidade incômoda. A prática foi hostilizada em ambientes ocidentais e chegou a ser discutida publicamente em Veneza, onde Cirilo a defendeu lembrando os muitos povos que já rezavam no próprio idioma. Em Roma, o papa Adriano II, que sucedera a Nicolau I, aprovou os livros litúrgicos eslavos e mandou depô-los sobre o altar da igreja de Santa Maria ad Praesepe, hoje Santa Maria Maior.

Cirilo adoeceu gravemente em Roma, professou os votos religiosos, tomou o hábito monástico e morreu em 14 de fevereiro de 869. Foi sepultado na basílica de São Clemente, onde suas relíquias continuam veneradas. Metódio seguiu sozinho: consagrado bispo, recebeu o título da antiga sé de Sírmio e voltou como legado pontifício para as gentes eslavas.

O resto da vida dele foi de disputa. Passou dois anos preso, acusado de invadir jurisdição episcopal alheia, e só foi solto por intervenção pessoal do papa João VIII. Em 880 foi convocado a Roma, absolvido de todas as acusações, e obteve do mesmo papa a bula Industriae tuae, endereçada ao príncipe Svatopluk, que recomendava o uso da língua eslava na liturgia para que nela fossem proclamados os louvores e as obras de Cristo. Em 881 ou 882, em Constantinopla, teve reconhecimento semelhante do imperador e do patriarca Fócio. Dedicou os últimos anos a traduzir a Escritura, os livros litúrgicos e a coletânea de leis bizantinas chamada Nomocanon, deixou como sucessor o discípulo Gorazd e morreu em 6 de abril de 885, em Velehrad.

Por que Cirilo e Metódio são copadroeiros da Europa

O papa Leão XIII, na encíclica Grande munus, de 30 de setembro de 1880, recordou os dois irmãos a toda a Igreja e introduziu a festa litúrgica deles no calendário católico. Cem anos depois, em 31 de dezembro de 1980, João Paulo II assinou a carta apostólica Egregiae virtutis, dada em Roma sob o Anel do Pescador, e nela constituiu e declarou os dois celestiais copadroeiros de toda a Europa, ao lado de São Bento, que Paulo VI havia proclamado patrono do continente em 1964.

O documento explica a escolha. São Bento está no centro da corrente que parte de Roma; os irmãos de Tessalônica trazem o contributo da antiga cultura grega e o alcance da Igreja de Constantinopla e da tradição oriental. Juntos, cobrem as duas metades do continente. A proclamação veio no ano em que católicos e ortodoxos entraram na etapa de um diálogo decisivo, iniciado na ilha de Patmos, depois dos passos dados a partir do Concílio Vaticano II. Em 2 de junho de 1985, na encíclica Slavorum Apostoli, o mesmo papa voltou ao assunto e apresentou os dois como modelo do missionário que traduz a fé para a língua e a cultura de quem a recebe.

Para quem vai à missa em português num domingo qualquer, a memória tem sabor particular. A liturgia na língua que se fala em casa, que hoje ninguém estranha, foi defendida diante de Roma, no século IX, por dois irmãos que precisaram inventar um alfabeto para celebrá-la. A data lembra que a fé só chega inteira quando chega na língua de quem escuta.

Outras datas de fevereiro

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