
Em 4 de janeiro de 1875 circulou o primeiro número de A Província de S. Paulo, jornal diário e matutino que nasceria fadado a mudar de nome, mas não de endereço na imprensa brasileira: mais de um século depois, ele continua em circulação sob outro nome.
A Província de S. Paulo e as duas bandeiras fundadoras
O jornal foi fundado por um grupo de republicanos históricos — entre eles Américo Brasiliense de Almeida Melo, Manuel Ferraz de Campos Sales, Rangel Pestana e José Maria Lisboa — com duas bandeiras declaradas desde o primeiro número: derrubar a monarquia e acabar com a escravidão. Reunir essas duas causas na mesma folha não era pouco para 1875: faltavam ainda anos para que a República fosse proclamada e para a abolição da escravidão, e A Província de S. Paulo defendia publicamente as duas coisas ao mesmo tempo, num momento em que boa parte da imprensa do país preferia o silêncio ou a defesa da ordem estabelecida.
O abolicionismo paulista e a imigração europeia
Ao longo da década de 1880 as duas campanhas correram juntas nas páginas do jornal, ao lado de uma terceira bandeira: a defesa da imigração europeia para substituir o trabalho escravo nas lavouras de café. A combinação das três causas diz muito sobre o abolicionismo paulista daquela época — um abolicionismo que também respondia ao interesse econômico dos cafeicultores em trocar mão de obra escravizada por mão de obra livre e assalariada — e segue rendendo debate historiográfico sobre o que exatamente aquele republicanismo queria construir depois da monarquia e da escravidão. Um jornal fundado para acabar com dois sistemas ao mesmo tempo já indicava que o país que viria depois não seria fácil de organizar.
De Júlio de Mesquita ao Estado de S. Paulo
Em 1885 Júlio César Ferreira de Mesquita entrou para a redação e logo assumiu a direção, inaugurando o controle familiar que atravessaria o século seguinte no comando do jornal. Mais tarde o nome do jornal mudou: a província virou estado, e o jornal passou a chamar-se O Estado de S. Paulo, batizando-se de novo pelo mesmo raciocínio que tinha dado nome à folha original — o nome da unidade política do momento.
Dois governos, uma censura, versos no lugar da notícia
O jornal sobreviveu a duas ocupações do governo ao longo da sua história — uma no Estado Novo, outra na ditadura militar, quando a censura prévia obrigou a redação a driblar a proibição de publicar certas matérias enchendo os espaços cortados com versos de Camões e receitas de bolo. O recurso virou um símbolo de resistência silenciosa: em vez de deixar a página em branco ou aceitar a censura sem marca nenhuma, o jornal preencheu o vazio deixado pelo corte com algo que qualquer leitor atento reconhecia como sinal de que ali faltava notícia.
A permanência da família Mesquita à frente do jornal, geração após geração, é rara mesmo entre os grandes veículos de imprensa do país, que ao longo do século XX passaram, em muitos casos, por venda, fechamento ou mudança completa de controle acionário. Nascido como diário e matutino, o jornal manteve desde o primeiro número a periodicidade e o compromisso com as duas bandeiras que lhe deram origem, mesmo depois de mudar de nome quando a República foi proclamada. É um raro caso de continuidade de calendário numa imprensa historicamente marcada por interrupções, fechamentos forçados e reaberturas sob outro nome.
Não há lei federal que institua 4 de janeiro como data comemorativa por causa da fundação de A Província de S. Paulo — é efeméride histórica, sem norma que a crie. A Lei nº 12.345, de 2010, que fixa critério para instituição de novas datas comemorativas no calendário nacional, exige alta significação comprovada e consulta pública prévia, e nada disso foi acionado aqui: o 4 de janeiro que se comemora é o aniversário que o próprio jornal reivindica para si, um dos mais antigos ainda em circulação no país.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!

