Imagem ilustrativa relacionada a Juliano Moreira

Juliano Moreira, o médico negro que mudou a psiquiatria brasileira

Corredor de hospital antigo com janelas amplas sem grades
Foto: Laura James / Pexels

Juliano Moreira nasceu em Salvador em 6 de janeiro — 1872, segundo a maioria das biografias consultadas, ou 1873, segundo parte da literatura acadêmica, sem que as fontes cheguem a um consenso sobre o ano exato. O que não muda é o que Juliano Moreira fez depois: tornou-se o médico que transformou a forma como a psiquiatria brasileira enxergava a loucura, numa época em que a cor da pele de um paciente ainda era tratada como explicação de doença mental.

Juliano Moreira, o menino que entrou na faculdade aos treze

Filho de mãe empregada doméstica, negro e pobre num Brasil que ainda tinha escravidão legal, Juliano Moreira entrou na Faculdade de Medicina da Bahia aos treze anos, com apoio do padrinho, e formou-se aos dezoito, em 1891, com uma tese sobre sífilis maligna precoce. A trajetória já era incomum para o Brasil daquele tempo: um adolescente negro cursando medicina numa faculdade que, na prática, recebia quase só filhos de família abastada e branca.

Juliano Moreira e a chegada de Freud ao Brasil

Depois de formado, especializou-se em psiquiatria na Europa e voltou ao Brasil carregando ideias que ainda eram novidade até para médicos europeus. Em 1899 deu uma das primeiras conferências no país sobre as ideias de Sigmund Freud, num momento em que a psicanálise ainda era novidade recente até na Europa — sinal de que acompanhava de perto o que havia de mais recente na medicina mental do seu tempo, e não se contentava em repetir doutrina antiga.

O hospício sem grades

De 1903 a 1930, Juliano Moreira dirigiu o Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro. Na direção, mandou tirar as grades das janelas, proibiu camisas de força e coleiras nos pacientes e tentou substituir a contenção física pelo trabalho e pela clínica. Eram décadas em que hospício, para a maioria dos médicos brasileiros, significava basicamente depósito e contenção — e um diretor que retirava grade de janela ia contra a prática corrente da profissão.

Quase três décadas à frente da mesma instituição deram a Juliano Moreira tempo para mudar rotina, treinar equipe e sustentar a reforma mesmo diante de resistência de colegas acostumados ao modelo antigo de internação. Não foi uma mudança de um ano ou de uma gestão isolada: foi um projeto de longo prazo, construído dentro do próprio hospício, com o diretor pessoalmente presente para garantir que as novas regras — sem grade, sem camisa de força, sem coleira — fossem cumpridas todos os dias.

Um médico negro contra o racismo científico

O ponto que dá a esta biografia um valor que vai além da história da medicina é este: naquele momento, boa parte da psiquiatria brasileira explicava a loucura pela mestiçagem e pela cor da pele, como se ser negro ou mestiço já fosse, por si, fator de adoecimento mental. Juliano Moreira — um médico negro que tinha vivido na pele o preconceito daquele Brasil — foi quem enfrentou de frente essa tese, atribuindo o adoecimento mental a causas sociais: falta de higiene, de educação e de assistência, e não à raça do paciente.

Defender essa posição dentro da própria classe médica exigia mais do que argumento científico: exigia enfrentar colegas que ocupavam cadeiras de prestígio e que tratavam a mestiçagem como quase sinônimo de degeneração. Um médico negro contestando essa tese, com formação e cargo suficientes para ser ouvido, colocava em xeque não só uma teoria, mas o próprio lugar que a medicina brasileira reservava a pessoas como ele dentro da profissão.

Juliano Moreira morreu tuberculoso em Petrópolis, em 1933. O nome dele batiza hospitais e institutos país afora até hoje, prova de que a reforma psiquiátrica brasileira tem um começo bem mais antigo do que costuma se imaginar. Não há lei federal que faça de 6 de janeiro uma data comemorativa por causa de Juliano Moreira: é efeméride histórica, sustentada só pelo registro biográfico — inclusive no pequeno detalhe em que as próprias biografias divergem, o ano exato do nascimento.

Outras datas de janeiro

Sobre Redação

Portal Direto Noticias - Imparcial, Transparente e Direto | https://diretonoticias.com.br | Notícias de Guarapari, ES e Brasil. Ative as notificações ao entrar e torne-se um seguidor. Caso prefira receber notícias por email, inscreva-se em nossa Newsletter, ou em nossas redes:

Veja Também

Imagem ilustrativa relacionada a Dia Mundial do Biquíni

Dia Mundial do Biquíni: a história da peça lançada em 1946

5 de julho é o Dia Mundial do Biquíni, que lembra o lançamento da peça por Louis Réard em Paris, em 1946.

Your Mastodon Instance
Share to...