
13 de julho é a data em que o calendário litúrgico lembra Santo Henrique II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico e o único chefe daquele império que a Igreja Católica veio a canonizar. É uma memória de caráter facultativo, o que na prática significa que cada comunidade decide se a celebra, e por isso a data passa quase despercebida por aqui. A história, porém, merece ser contada, porque junta duas coisas que raramente aparecem lado a lado: o governo de um império e a lista dos santos.
Do ducado da Baviera ao trono da Germânia
Henrique nasceu na primavera de 973, na Baviera, e parte das fontes situa o nascimento em Bad Abbach. Era filho do duque Henrique da Baviera e da princesa Gisela da Borgonha. Foi batizado por São Wolfgang, bispo beneditino que se tornou seu padrinho e também seu preceptor, encarregado de lhe dar uma educação cristã sólida. Esse detalhe explica muita coisa do que veio depois: o menino cresceu perto de mosteiros, e o adulto governou como quem se sentia responsável por eles.
Aos 22 anos, em 995, sucedeu ao pai como duque da Baviera. Com a morte de Oto III, em 1002, foi eleito rei da Germânia; dois anos depois, em 1004, tornou-se também rei da Itália. Era o último representante da dinastia otoniana, a família que havia reorganizado o poder no centro da Europa depois de um longo período de desordem. Ainda antes de ser eleito rei, casou-se com Cunegundes, filha do conde de Luxemburgo. O casal não teve filhos, e a tradição registra que os dois mantiveram continência durante toda a união. Cunegundes também é venerada como santa: morreu em 1039 e foi canonizada em 1200.
Santo Henrique II e a fundação de Bamberga
A obra mais duradoura do reinado não foi uma batalha, foi uma diocese. Em 1007, Henrique fundou a diocese de Bamberga, na Alemanha, que se tornou um centro espiritual e cultural de grande importância. O casal patrocinou a construção de mosteiros e igrejas por todo o império, e coube à imperatriz acompanhar de perto a edificação da catedral de Bamberga e do convento de Kaffungen.
Esse traço define o personagem melhor do que qualquer elogio genérico. Henrique promoveu a reforma do clero e dos mosteiros, reconstruiu templos com contribuições generosas e é lembrado por um governo pautado pela justiça, pela bondade e pela caridade, com benefícios sociais e assistenciais à população. Estabeleceu ainda paz com a França, num tempo em que a fronteira era assunto resolvido a ferro. Governar, para ele, incluía construir instituições que continuassem funcionando depois que ele saísse de cena.
A coroa imperial de 1014 e a disputa com um antipapa
Em 14 de fevereiro de 1014, o papa Bento VIII o coroou imperador, em Roma. A cerimônia não foi só protocolo: dois anos antes, em 1012, quando um antipapa disputou a cátedra de Pedro com Bento VIII, Henrique declarou o rival ilegítimo e proibiu que exercesse funções episcopais nos territórios sob seu domínio. Em outras palavras, o poder civil interveio a favor de um lado, e a coroação veio depois disso.
O imperador que quis ser monge
Há um episódio que as fontes gostam de repetir. Em Cluny, Henrique manifestou o desejo de abraçar a vida monástica e deixar o governo. Quem o demoveu foi o abade Ricardo de Saint Vannes, de Verdun, com o argumento de que ele era mais útil onde estava. Em vez de monge, tornou-se oblato beneditino, isto é, um leigo ligado por promessa a uma comunidade monástica, seguindo a regra no que a vida no mundo permitisse. É uma solução que diz muito sobre a Idade Média: em vez de escolher entre o claustro e o trono, encaixou um dentro do outro.
Uma morte em 1024 e uma canonização com três datas
Henrique morreu em 13 de julho de 1024, em Grona, na Saxônia, lugar que parte das fontes registra como Göttingen. Foi sepultado na catedral de Bamberga, e o túmulo virou destino de peregrinação. Com ele terminou a linhagem otoniana, sem herdeiro direto.
A canonização é o ponto em que as fontes em português não se entendem, e vale dizer isso em voz alta em vez de escolher um número ao acaso. Todas atribuem o ato ao papa Eugênio III. O ano, porém, aparece como 1146 em umas, 1147 em outras e 1152 em outras ainda. Para o leitor, o que fica é o intervalo: pouco mais de um século depois da morte, um imperador do Ocidente foi inscrito entre os santos, e continua sendo o único do cargo a receber esse reconhecimento.
Por que uma memória facultativa merece espaço num calendário de datas? Porque facultativa não quer dizer menor. Quer dizer que a Igreja deixa a decisão nas mãos de cada comunidade, e o efeito prático é que datas assim só sobrevivem se alguém as contar. Esta, em particular, guarda uma pergunta que não envelheceu: o que se espera de quem exerce poder. A resposta que o 13 de julho oferece é antiga e desconfortável, porque não fala de conquista nem de território, e sim de escolas, hospitais, mosteiros e de um governante que preferia ser lembrado pelo que construiu para os outros.
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