Curso de formação de delegado da PCES: a etapa final

As aulas descritas aqui aconteceram em janeiro de 2025 e todas as datas divulgadas pela Polícia Civil já venceram. Este texto registra em que ponto do curso de formação de delegado estava a segunda turma de aprovados no concurso da corporação. Não há inscrição aberta, prazo a cumprir nem convocação de ninguém nas linhas abaixo.

A segunda turma de candidatos aprovados para o cargo de Delegado de Polícia no concurso da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) chegou à etapa final do curso de formação profissional em janeiro de 2025. Entre os dias 9 e 16 de janeiro, a turma teve aulas práticas de duas disciplinas: Técnicas Operacionais, no Ginásio da Secretaria de Estado de Esporte (Sesport), em Bento Ferreira, e direção de viatura, entre os dias 14 e 16, no Pátio da Real Minas, em Vila Velha. O curso inteiro tem 540 horas-aula e conclusão prevista para 19 de fevereiro.

A escada do certame chega até 19 de fevereiro e para ali

O curso de formação de delegado tem etapas, e a nota oficial celebra a passagem de uma delas para a seguinte. Vale montar a sequência com o que ela própria sustenta — e reparar em qual degrau o texto simplesmente para:

  • aprovação no concurso da PCES — a nota chama a turma de candidatos aprovados para o cargo de Delegado de Polícia, mas não diz de que ano é o certame, quantas vagas foram ofertadas nem quantas pessoas passaram;
  • curso de formação profissional — a turma é a segunda; o comunicado não informa quando ela começou nem quem coordena a formação;
  • etapa final, com as disciplinas práticas — o degrau descrito no comunicado, cumprido entre 9 e 16 de janeiro;
  • Armamento e Tiro — prevista para começar na sexta-feira, dia 24, e ir até 6 de fevereiro, com uma avaliação final marcada para o dia do encerramento;
  • conclusão do curso — prevista para 19 de fevereiro;
  • nomeação, posse e lotação — nada disso aparece. O comunicado termina na data prevista de conclusão e não escreve uma linha sobre o que vem depois dela.

Enquanto esse percurso corre, quem está na turma é aluno. O próprio texto oficial usa três rótulos para as mesmas pessoas — candidatos aprovados, futuros delegados e alunos —, e só o primeiro e o terceiro descrevem a situação de quem estava no ginásio em janeiro. Passar de uma disciplina para a seguinte é preparo, não serviço prestado a alguém: ninguém da segunda turma estava em atendimento ao público em janeiro, e a nota nunca afirma que estivesse.

540 horas-aula, 20 horas de abordagem e nenhuma pessoa contada

Os números do comunicado medem calendário e carga horária. A disciplina de Técnicas Operacionais teve 20 horas; o curso inteiro soma 540 horas-aula. São duas unidades diferentes no mesmo texto, e ele não diz se as 20 horas estão dentro das 540 nem quanto vale uma hora-aula ali. As aulas de direção de viatura saíram sem carga horária declarada, e a disciplina seguinte também.

Falta o número que daria sentido a todos os outros: o comunicado não conta uma única pessoa. Não informa quantos alunos formam a segunda turma, quantos iniciaram o curso, quantos chegaram à etapa prática, quantos foram aprovados no concurso nem quantas vagas o edital previa. Aprovado no certame, matriculado no curso, aluno que avançou de etapa e vaga de edital são quatro contagens distintas — e nenhuma delas foi divulgada aqui.

Em outra carreira da segurança pública estadual o número existia no anúncio: 300 convocados estiveram na aula que abriu a formação da turma deles, em agosto de 2024 — outro concurso, outra corporação e o degrau de abertura, não o final.

As 20 horas em que o curso de formação de delegado saiu da sala

A disciplina de Técnicas Operacionais tratou de abordagem: voz de abordagem, posicionamento, algemação, imobilização e condução. A turma treinou ainda abordagem a pessoas e a veículos, busca pessoal — a revista feita em quem é abordado — e o que o comunicado chama de fundamentos operacionais, expressão que ele não explica. As aulas foram ministradas por operadores da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core), unidade da própria Polícia Civil que atua em ocorrências de alto risco no Estado, segundo descrição publicada em setembro de 2025, meses depois destas aulas. Por que a formação de delegado passa por essa unidade, a nota de janeiro não diz.

Entre 14 e 16 de janeiro veio o volante, no Pátio da Real Minas, em Vila Velha, sob instrução de Felipe Seidel Albuquerque e Amarildo José Stinguel. A nota nomeia os dois instrutores e não informa a função, a corporação ou a instituição de nenhum deles. Também não explica o arranjo dos endereços: o ginásio é identificado pelo nome de uma secretaria estadual de outra área, o pátio aparece só pelo nome, e nem cessão, nem custo, nem responsável pelo espaço aparecem. Repare ainda que o comunicado localiza uma aula por localidade — Bento Ferreira — e a outra por município, sem dizer a cidade da primeira.

Há ainda uma oscilação de nomenclatura dentro da própria nota: a disciplina do volante aparece batizada de três formas diferentes. No primeiro parágrafo ela é Direção Defensiva; no terceiro vira Direção Ofensiva, Defensiva e Evasiva; e a frase seguinte descreve o treino como condução de viaturas defensiva e evasiva, sem a ofensiva. São três recortes do mesmo conteúdo, e o material não escolhe nenhum.

De 24 de janeiro a 6 de fevereiro, e o intervalo que a nota não preenche

A etapa seguinte anunciada era a disciplina de Armamento e Tiro, que começaria numa sexta-feira, dia 24 de janeiro, e se encerraria em 6 de fevereiro — data em que, segundo o comunicado, haveria uma avaliação final. O curso, porém, tinha conclusão prevista para 19 de fevereiro.

Duas coisas ficam sem resposta nesse trecho. A primeira: o texto não diz se a avaliação final é da disciplina de tiro ou do curso inteiro. A segunda: entre a data da avaliação e a data da conclusão sobra um intervalo sobre o qual a nota se cala — não há menção a outra disciplina, a resultado, a cerimônia ou a qualquer providência nesse período.

Bolsa, reprovação e lotação: o que não está aqui para quem pensa no próximo concurso

Boa parte do que um leitor interessado na carreira procuraria não foi divulgada nesta nota, e vale dizer item por item em vez de preencher com suposição:

Remuneração durante o curso. Nada no texto diz se quem cursa a formação é remunerado, se há ajuda de custo e se as aulas ocupam o dia inteiro — três respostas que decidem se dá para conciliar o curso com outro trabalho.

Reprovação. Não há uma linha sobre o que acontece com quem não é aprovado numa disciplina ou na avaliação final: se há recuperação, recurso, desligamento ou reaproveitamento em turma seguinte.

Origem do certame. O ano do concurso, o número do edital, o total de vagas e a quantidade de aprovados não aparecem. Sem essas âncoras não é possível saber quanto tempo separa a inscrição desta turma da sala de aula em que ela estava em janeiro.

Novo concurso. O comunicado não trata do assunto. Não é uma negativa da corporação, é ausência: o texto simplesmente não fala em novo certame, e nada nele permite dizer que haveria ou que não haveria.

Posse e lotação. A nota não informa data de nomeação, data de posse nem em que unidades ou municípios a turma seria lotada — que é justamente a informação capaz de mudar a rotina de quem vai acabar designado para um município distante de onde mora.

Uma aluna é a única voz da turma, e o nome dela não entra neste texto

Há uma única declaração no comunicado, e ela é de uma aluna da própria turma. O que a fala traz é a impressão de quem está no curso sobre o curso que faz: nenhum número, nenhum prazo, nenhuma regra, nada sobre a origem do certame e nada que um leitor de fora não pudesse supor de um treinamento prático. Por isso ela não foi reproduzida aqui entre aspas.

O nome dessa aluna também ficou de fora, e a escolha é editorial, não falha de apuração. Quem está em formação aparece na nota por um relato — uma impressão sobre a experiência —, e não por um ato individual como uma nomeação ou uma designação. Nesses casos o portal atribui pela função e informa quantas pessoas são; aqui nem a contagem serve de substituto, porque o tamanho da turma nunca foi divulgado.

Sobre o contraditório, o registro honesto é este: o material é um comunicado da própria corporação a respeito da formação que ela mesma promove. Ninguém que coordene o curso foi ouvido, nem os dois instrutores nomeados, nem entidade de classe da carreira, nem candidato aprovado que não estivesse nesta turma, nem pesquisador ou órgão de controle que acompanhe formação policial de fora. Quem fala, no material, é quem organizou as aulas.

O que aconteceu depois de 19 de fevereiro de 2025 não está no material

O comunicado descreve o meio de um percurso e para antes do fim dele. Por ele não se pode afirmar que o curso terminou na data prevista, que houve nomeação e posse ou onde a turma foi lotada — e tampouco se pode afirmar o contrário. Passado mais de um ano da publicação original, quem quiser saber o desfecho terá de procurá-lo fora deste comunicado.

Vale ver como o degrau seguinte costuma ser anunciado numa carreira vizinha: em abril de 2025, 333 pessoas assumiram funções nos presídios capixabas ao terminar o curso que faziam. Não é a mesma turma, não é o mesmo concurso e não é a mesma corporação — serve apenas para mostrar o que a nota da Polícia Civil sobre os alunos a delegado deixou de fora: o momento em que o curso vira exercício do cargo.

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