
Hoje, 26 de setembro, é o Dia de São Cosme e São Damião, festa que mistura fé católica e religiões de matriz africana numa mesma data. A devoção não tem lei nenhuma por trás — só séculos de costume popular.
O que se comemora no Dia de São Cosme e São Damião
Cosme e Damião eram irmãos gêmeos, médicos, e a tradição os apresenta atendendo doentes sem cobrar nada — o que lhes valeu o apelido grego de anargiroi, os que não aceitam prata. Foram martirizados no início do século 4, no tempo das perseguições de Diocleciano, e a devoção a eles chegou cedo a Roma, onde ganharam uma basílica no Fórum.
Essa fama de generosidade ajuda a explicar por que a devoção aos dois irmãos se espalhou tão depressa: um par de médicos que cuidava de graça, num tempo de perseguição religiosa, virou símbolo fácil de reconhecer e fácil de repetir de geração em geração, em lugares muito distantes de onde viveram.
No Brasil a dupla de santos médicos virou, com o tempo, os santos das crianças. O costume de distribuir sacolinhas de doces nas ruas atravessa o país inteiro, do Rio de Janeiro a Belém, e mistura moleque pedindo doce com missa e culto de terreiro no mesmo bairro.
A origem apurada: o encontro com os Ibejis
O costume de distribuir doces não nasceu de decreto nenhum. Ele nasceu do encontro entre o catolicismo trazido por Portugal e as religiões de matriz africana, em que Cosme e Damião foram associados aos Ibejis, os orixás meninos — associação forjada no período escravista, quando cultuar as divindades africanas em público era motivo de perseguição e o disfarce de santo católico servia de proteção.
É por isso que a celebração se desdobra em dois dias: a Igreja marca 26 de setembro, e o candomblé, a umbanda e a festa de rua ficaram com o 27. O caso também ilustra o que a historiografia chama de romanização — a hierarquia católica passou o final do século 19 e o começo do 20 tentando disciplinar as festas de leigos, e, no caso de Cosme e Damião, a rua venceu.
Romanização, nesse contexto, é o nome que se dá ao esforço de tirar das mãos de irmandades e festeiros leigos o controle de celebrações populares, concentrando a devoção em torno do padre e das orientações vindas de Roma. Cosme e Damião mostram um caso em que esse esforço não conseguiu apagar a versão popular da festa — apenas passou a conviver com ela, em dias separados do calendário.
Por que não existe lei para a data
Não existe lei, decreto ou projeto a relatar sobre o Dia de São Cosme e São Damião. A memória dos dois santos médicos pertence ao calendário litúrgico da Igreja Católica, e nenhuma norma brasileira a criou — a data foi conferida no calendário dos santos do portal do Vaticano, que registra em 26 de setembro os santos Cosme e Damião, mártires.
Vale um cuidado de apuração: boa parte das páginas brasileiras dá o dia 27 de setembro como a data, e as duas informações estão certas em contextos diferentes. O 26 é a memória do calendário romano; o 27 é o dia em que a festa popular brasileira e as religiões de matriz africana celebram os gêmeos.
Como a data é celebrada hoje
A distribuição de sacolinhas de doces continua sendo o traço mais visível da celebração, repetida em ruas residenciais de cidades grandes e pequenas. Ao lado dela, cresce também a ação social organizada em torno da data, com entidades promovendo doações e atividades voltadas a crianças no mesmo período.
A convivência entre igreja e terreiro na mesma data também aparece registrada por reportagens recentes, que descrevem tanto a distribuição de doces em bairros populares quanto celebrações de comunidades de religião de matriz africana — sinal de que a festa segue dividida entre duas tradições sem que uma tente apagar a outra.
O Dia de São Cosme e São Damião resume, num único calendário, dois caminhos de fé que se cruzaram há séculos sem pedir licença a nenhuma lei. A festa segue viva porque a rua a manteve — não porque o Estado a tenha decretado.
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