Escola de Guarapari visita comunidade indígena e assentamento

A Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Angélica Paixão, de Guarapari, separou turmas em dois grupos numa quarta-feira, 28 de agosto de 2024, e mandou cada um para um município diferente: um grupo de estudantes de Guarapari em comunidade indígena, em Aracruz, e outro no assentamento Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Guaçuí. O registro é de agosto de 2024, e o material oficial sobre a atividade não acompanha nada do que veio depois dela.

O texto oficial chama a saída de duas coisas no mesmo trecho — visitas técnicas primeiro, aulas de campo logo em seguida — e não explica se há diferença entre uma e outra no planejamento da unidade. O que ele registra é que os dois grupos saíram simultaneamente, cada um para um destino, e voltaram no mesmo dia. Não foi a única saída da escola naquele mês: oito dias antes, a mesma escola havia levado turmas de duas disciplinas eletivas a um roteiro de museus, biblioteca e teatro, fora do Espírito Santo.

O roteiro dos estudantes de Guarapari em comunidade indígena

Em Aracruz, pelo que o material oficial descreve, o grupo:

  • sentou numa roda de conversa conduzida pelo cacique local;
  • percorreu trilhas ecológicas na Mata Atlântica;
  • conheceu como se faz o artesanato indígena — sem que o texto diga se os estudantes assistiram ao trabalho, ouviram a explicação de quem o faz ou chegaram a pôr a mão nele.

Os verbos importam porque marcam o tamanho do que aconteceu. Nesse roteiro, os estudantes conversaram, caminharam e olharam. Nada no material indica que tenham produzido alguma coisa: não há trabalho escrito, gravação, exposição nem registro recolhido para uso posterior em sala. E a comunidade que os recebeu fica sem identificação — o texto não informa o nome da aldeia, o povo a que ela pertence, nem o nome do cacique que conduziu a conversa.

O que o segundo grupo ouviu no assentamento de Guaçuí

Do outro lado, no assentamento Florestan Fernandes, o roteiro seguiu a mesma lógica de escutar e observar. Os assentados receberam o grupo. Houve outra roda de conversa, desta vez com lideranças do movimento. Os estudantes viram de perto uma fábrica de geleias e licores tocada pelos próprios moradores. E ouviram relatos de quem vive em assentamento e em acampamento.

Aqui há um detalhe que o material entrega sem comentar: tudo o que esse grupo ouviu sobre reforma agrária veio de quem mora no assentamento e das lideranças do movimento que o organiza. O texto não registra nenhuma outra fonte de informação durante a atividade, nem diz se o assunto foi preparado em sala antes da viagem ou retomado depois dela. Também não explica a diferença entre assentamento e acampamento, embora use as duas palavras na mesma frase.

Cultura indígena e reforma agrária: os temas que o título oficial não nomeava

O título com que a matéria foi publicada falava em temas essenciais para a formação cidadã sem dizer quais. Pelo corpo do material, são três, e todos têm nome:

  • a cultura indígena e o modo como ela influencia a cultura brasileira;
  • a luta pela reforma agrária;
  • a rotina de quem vive em assentamentos e acampamentos.

Nenhum dos três é desenvolvido no texto oficial: não há uma linha sobre o que foi dito na roda de conversa em Aracruz, nem sobre o que as lideranças apresentaram em Guaçuí. Escolas capixabas repetem esse tipo de saída com frequência e com recortes parecidos — dias antes, outra escola da rede estadual dedicou uma aula de campo à história e à cultura dos povos negros, com roteiro montado em torno de sítios históricos e de uma comunidade quilombola. E no início de 2025, meses depois destas viagens, a rede estadual passou a oferecer às escolas um material pedagógico sobre história e cultura indígena e afro-brasileira — recurso que ainda não circulava, naquele formato, quando os dois grupos de Guarapari viajaram.

A atividade está relatada; o efeito dela está apenas afirmado

O material oficial diz que as viagens ampliaram os conhecimentos dos estudantes, que um grupo compreendeu a influência da cultura indígena sobre a brasileira e que o outro pôde entender mais profundamente a questão da reforma agrária. São afirmações sobre o que teria acontecido dentro de cada estudante, e o texto não traz nada que as sustente: nenhuma avaliação aplicada, nenhum trabalho pedido depois, nenhum acompanhamento posterior, nenhum número.

É a distância entre ter feito e ter mudado alguma coisa, e ela costuma desaparecer nos textos de divulgação escolar. A própria unidade voltou a campo naquele ano: em novembro de 2024, portanto depois desta atividade, a mesma escola levou estudantes a uma visita técnica ligada a energia e a reflorestamento. Nem aquele registro nem este dizem se as saídas fazem parte de um plano contínuo da escola ou se cada uma foi decidida isoladamente.

Como a coordenação pedagógica resumiu o dia

A coordenadora pedagógica da unidade apresentou as duas saídas como parte do que a escola procura oferecer para além da sala de aula: exercício de pensamento crítico e respeito às diferenças culturais e sociais.

Ao conectar os estudantes com diferentes aspectos da realidade brasileira, a escola contribui para a formação de cidadãos mais conscientes e engajados com as questões do país

Ravena Brazil Vinter Cruz, coordenadora pedagógica da escola, escreveu isso no material que a rede estadual divulgou dias depois das viagens — o mesmo material que serve de fonte única para tudo o que se sabe do episódio. Nenhum estudante, professor de disciplina, morador do assentamento ou integrante da comunidade indígena aparece falando no texto.

Sem número de estudantes, sem povo nomeado, sem nova data

O que o material deixa de fora é maior do que o que ele conta. Nada nele responde:

  • quantos estudantes participaram, no total e em cada grupo;
  • de que séries ou cursos eram, e como foram escolhidos;
  • qual comunidade indígena recebeu o primeiro grupo, e de que povo;
  • quem organizou e quem custeou o transporte de dois grupos a dois municípios;
  • se professores de alguma disciplina acompanharam cada roteiro;
  • se houve atividade em sala antes ou depois das visitas;
  • se haverá nova edição — sobre isso o texto simplesmente não fala, e silêncio não equivale a resposta negativa.

Uma ressalva de data, para quem for procurar o registro original: o material oficial situa a atividade apenas como nessa quarta-feira (28), sem mês nem ano. A data de 28 de agosto de 2024 vem do momento em que o texto foi divulgado, no início de setembro daquele ano.

Sobre Redação

Portal Direto Noticias - Imparcial, Transparente e Direto | https://diretonoticias.com.br | Notícias de Guarapari, ES e Brasil. Ative as notificações ao entrar e torne-se um seguidor. Caso prefira receber notícias por email, inscreva-se em nossa Newsletter, ou em nossas redes:

Veja Também

Imagem ilustrativa relacionada a dar entrada no seguro-desemprego

Dar entrada no seguro-desemprego morando em Guarapari

Dar entrada no seguro-desemprego morando em Guarapari: o passo a passo pelo aplicativo e pelo site, os documentos e o posto do Sine mais perto.

Your Mastodon Instance
Share to...