Tiroteio na festa de São Benedito: um morto e três feridos

Um homem de 20 anos morreu e outras três pessoas foram atingidas por disparos durante a festa de São Benedito, no Centro da Serra, no domingo, 15 de dezembro de 2024. Dois suspeitos foram presos na tarde da segunda-feira seguinte, 16, e autuados — etapa policial em que a polícia registra a prisão e o enquadramento que atribui, sem que nada tenha sido julgado. O tiroteio na festa de São Benedito foi apresentado pela Polícia Civil do Espírito Santo em entrevista coletiva na quarta-feira, 18, na Chefatura de Polícia Civil, em Vitória.

Entre as pessoas feridas estavam, segundo a corporação, um casal e um dos músicos da apresentação. As três foram socorridas. A pessoa que morreu não resistiu no próprio local. O material divulgado pela Polícia Civil não informa o estado de saúde dos feridos nem para onde foram levados, e não traz atualização posterior sobre nenhum deles.

O que a polícia atribui a cada um dos dois presos

São duas pessoas, com condutas diferentes na versão apresentada pela Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra — e é essa diferença que sustenta o enquadramento de cada uma.

Ao suspeito de 19 anos a corporação atribui a identificação do alvo. Segundo o adjunto da DHPP da Serra, delegado Pedro Henrique, ele acompanhava parentes no evento, teria reconhecido ali a pessoa que viria a ser baleada, deslocou-se ao bairro São Marcos para avisar o outro suspeito, entregou-lhe uma arma de fogo e retornou com ele para indicar o alvo. Ao suspeito de 26 anos a polícia atribui os disparos.

Os dois confessaram envolvimento, informou a Polícia Civil. O de 19 anos, ainda segundo a corporação, alega não ter atirado. Nenhuma versão da defesa aparece no material: releases policiais trazem um lado só, e a ausência de contraditório não equivale a concordância de quem é investigado.

Os locais também são distintos, e vale separá-los. O crime ocorreu na festa, no Centro da Serra. O suspeito de 19 anos foi preso na própria residência, no dia seguinte. O de 26 anos foi localizado no local de trabalho. Os dois foram conduzidos à sede da DHPP da Serra, onde foram autuados. A entrevista à imprensa, essa sim, foi em Vitória — não é onde o caso corre.

Após buscas incessante e ininterruptas, o suspeito de 19 anos foi preso em sua residência no dia seguinte, onde confessou a participação no crime. No local, encontramos grande quantidade de drogas, um carregador de arma de fogo e uma balança de precisão, evidenciando sua ligação com o tráfico de drogas

A descrição é do delegado Pedro Henrique, adjunto da DHPP da Serra. A quantidade exata e o tipo da droga não foram detalhados — grande quantidade é a única medida oferecida —, e o material não menciona confirmação laboratorial nem perícia balística.

O enquadramento dado pela polícia aos dois é o de homicídio qualificado e tripla tentativa de homicídio. Sobre o suspeito de 19 anos pesa ainda o tráfico de drogas. A motivação, na versão da investigação, seria a disputa do tráfico entre os bairros Cascata e São Marcos, na Serra: a própria Polícia Civil escreve que o crime teria sido motivado por isso, no condicional, o que indica hipótese de trabalho e não conclusão fechada.

Autuado, indiciado, réu: em que fase o caso está

A palavra usada pelo órgão importa, porque cada uma marca um degrau diferente e nenhuma delas significa culpa reconhecida.

  • Autuado — a polícia formaliza a prisão e registra o enquadramento que atribui à conduta. É o degrau em que estão os dois presos neste caso.
  • Indiciado — ao concluir o inquérito, a autoridade policial aponta formalmente quem considera autor. Continua sendo conclusão policial.
  • Denunciado e réu — o órgão de acusação decide se apresenta a acusação; se um juiz a receber, aí começa o processo e a pessoa passa a responder como ré.
  • Condenado — só depois da sentença. Nada disso ocorreu aqui.

Há um ponto que o material deixa em aberto: a palavra mandado não aparece uma única vez no texto da Polícia Civil. O órgão não diz se as duas prisões foram em flagrante, se houve ordem judicial, nem quem autorizou a entrada dos policiais na residência do suspeito de 19 anos. Delegacia procura; juízo expede ordem — e, sem menção a ordem judicial, o que o material sustenta é apenas a ação policial que ele descreve.

O material também não diz se houve audiência de custódia nem qual foi a decisão sobre a permanência dos dois na prisão. Quando existe decisão desse tipo, o próprio órgão costuma informá-la — foi o que aconteceu no segundo caso apresentado na mesma coletiva, mais adiante nesta matéria.

O que a fonte não informa sobre o tiroteio na festa de São Benedito

A ausência também é notícia, e um release oficial nunca a declara. Sobre este caso, o material da Polícia Civil não responde:

  • o fundamento das duas prisões — flagrante, ordem judicial ou outra medida;
  • quem franqueou a entrada dos policiais na residência do suspeito de 19 anos;
  • o estado de saúde das três pessoas feridas e para onde foram levadas;
  • a quantidade, o tipo e o peso da droga apreendida, e se houve exame laboratorial;
  • se o suspeito de 19 anos responde também por algo relativo ao carregador apreendido;
  • se os dois têm defesa constituída, e o que ela diz;
  • se havia revista ou controle de acesso na festa, e se algo mudou para as edições seguintes;
  • em que bairros ficam a residência e o local de trabalho onde cada um foi encontrado.

Uma segunda morte na mesma festa, dois anos antes

Na mesma coletiva, a Polícia Civil apresentou a conclusão de outro caso: a morte de um homem de 32 anos no dia 27 de dezembro de 2022, quando a Festa de São Benedito era encerrada, também no Centro da Serra. O acusado tem 25 anos e foi preso em 07 de agosto de 2024, no bairro Santo Antônio — quase dois anos depois do crime. O release escreve apenas neste ano, o que, pela data da coletiva, corresponde a 2024.

Os dois episódios têm em comum o local e o nome da festa, em anos diferentes. O material não afirma nenhuma relação entre eles — nem de pessoas, nem de motivação, nem de grupo. Foram apresentados no mesmo dia porque a divisão que os investigou é a mesma. Ligar um ao outro é conclusão de quem lê, não informação do órgão.

Segundo o delegado Rodrigo Sandi Mori, vítima e acusado estavam armados dentro do evento de 2022 — uma pistola calibre 9mm e um revólver calibre 38 —, e o desentendimento teria partido de uma discussão entre a pessoa que morreu e um amigo do acusado, sem que a polícia aponte motivo. Na descrição da polícia, o acusado efetuou quatro disparos contra a vítima e deixou o local levando as duas armas.

Há uma diferença dentro do próprio material, e ela fica registrada como o órgão a apresentou. Em uma das falas, a Polícia Civil informa que duas pessoas foram baleadas naquela edição da festa e que uma delas morreu ali mesmo. O relato detalhado apresentado na sequência menciona, além da vítima, outras duas pessoas atingidas por disparos. A distribuição não fecha com o total declarado, e o release não explica a diferença.

Ele confessou o crime com riqueza de detalhes e foi indiciado por homicídio qualificado por motivo fútil, emprego de arma de fogo de uso restrito, tentativa de homicídio com as mesmas qualificadoras e furto. Atualmente, ele é réu em ação penal e está preso preventivamente, permanecendo à disposição da Justiça

A informação é do delegado Rodrigo Sandi Mori. É o caso mais adiantado dos dois: enquanto os presos de dezembro estavam apenas autuados, o acusado de 2022 já respondia como réu. Ainda assim, prisão preventiva não é condenação — é medida provisória, decidida durante o processo e revisável a qualquer tempo por quem a decretou.

A etapa seguinte à autuação é a conclusão do inquérito. Em episódio distinto e posterior a este, ocorrido quase um ano depois, a mesma divisão concluiu a investigação de um homicídio no bairro Mestre Álvaro, na Serra — outro caso, outras pessoas, útil apenas para ver como a fase de inquérito se encerra.

Por que esta matéria não nomeia as vítimas

O material oficial identifica quem morreu. Aqui, os nomes das pessoas atingidas nos dois episódios foram omitidos de propósito. Não é falha de apuração: idade, vínculo e local somados devolvem à vizinhança uma identificação que não acrescenta serviço a ninguém, e um registro desses fica indexado para sempre. Os nomes dos delegados que falaram em nome da corporação permanecem, porque eles respondem publicamente pelo que declararam.

Pela mesma razão, o texto não reproduz a descrição dos ferimentos nem o detalhamento da execução que constam do release.

Onde denunciar

Informação sobre crimes, autoria e localização de suspeitos pode ser repassada de forma anônima pelo 181, o Disque-Denúncia. Em situação de emergência, com risco imediato à vida, o número é o 190. Nenhum dos dois exige identificação de quem liga.

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