
31 de março é a data em que o calendário dos santos guarda a memória de São Benjamim, diácono martirizado na Pérsia por se recusar a parar de pregar.
Quem foi São Benjamim
A Pérsia sassânida do início do século V foi, por décadas, um lugar razoavelmente tolerante com os cristãos, até deixar de ser. O estopim, segundo o Vatican News, foi a destruição de um templo do fogo, santuário central do culto zoroastrista, atribuída a cristãos; a represália caiu sobre a comunidade inteira. Foi nesse cenário que morreu Benjamim, diácono de Ergol, cuja única arma era a pregação.
“Os primeiros cristãos eram mal vistos também na Pérsia. Em 420, Benjamim, diácono de Ergol, foi martirizado. Segundo a tradição, foi vítima de uma represália, depois da destruição de um templo ao deus fogo, atribuída aos cristãos. O diácono não desmentiu e morreu com um grupo de fiéis.”
Boa parte das páginas devocionais brasileiras, inclusive de arquidioceses, conta a história com outros detalhes: dá o nome da terra do diácono como Argol, e não Ergol, e situa o martírio por volta de 424, não em 420. Nenhuma das duas versões foi confirmada em fonte crítica, e por isso o correto é dizer que as datas variam entre 420 e 424, sem cravar uma. A mesma tradição acrescenta que Benjamim teria sido preso, solto sob a condição de parar de pregar, recusado o acordo e voltado a anunciar o Evangelho até ser preso de novo e morto. A frase que essa tradição lhe atribui diante do rei, quando lhe mandam adorar o sol e o fogo, resume o gesto: faze de mim o que quiseres, mas eu nunca renegarei o Criador do céu e da terra para prestar culto a criaturas perecíveis.
Um mito de calendário que a checagem derrubou
Sites de datas comemorativas atribuem a 31 de março um chamado Dia da Integração Nacional, que teria sido criado pela Lei nº 9.010, de 1995. É engano. A Lei nº 9.010, de 29 de março de 1995, tem ementa própria e sem qualquer relação com esse tema: “Dispõe sobre a terminologia oficial relativa à hanseníase e dá outras providências”, e seu artigo 1º proíbe o uso do termo lepra e derivados em documentos oficiais da União e dos Estados. O número da lei bate, o ano bate, mas o assunto não tem nenhuma relação com integração nacional nem com data comemorativa. Não existe, portanto, norma que institua o Dia da Integração Nacional em 31 de março; a informação circula sem lastro e não deve ser tratada como fato.
Sem lei, o que rege a data é o calendário da Igreja
Diferente de outras datas de calendário, a memória de São Benjamim não nasceu de lei nenhuma, brasileira ou estrangeira: chegou até hoje pelo martirológio, o registro que a Igreja mantém dos seus mártires. É esse calendário eclesiástico, e não qualquer Congresso, que fixa 31 de março para lembrar o diácono persa. No mesmo dia o calendário guarda ainda Santa Balbina, matrona romana, tradicionalmente ligada à perseguição do imperador Adriano.
Por que a história de São Benjamim ainda interessa
O que o caso de São Benjamim mostra vale além da devoção: é o retrato de como uma minoria religiosa vira suspeita de Estado. O diácono não foi condenado por um crime que tivesse cometido, e sim por pertencer ao grupo a quem se atribuiu o crime, e por se recusar a comprar a própria liberdade com o silêncio. É por isso que a Igreja o manteve no calendário por mil e seiscentos anos, e a memória cai sempre dentro da Quaresma, quando a liturgia insiste justamente em testemunho e conversão. No Brasil, o dia costuma passar em branco, inclusive nas paróquias, que raramente o anunciam do altar — talvez porque 31 de março, no calendário político do país, costume ser engolido pela lembrança de 1964.
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