
Na madrugada de 7 de janeiro de 1835, rebeldes tomaram de assalto o quartel e o palácio do governo em Belém. Começava ali a Cabanagem, a revolta que se tornaria o maior morticínio de um levante do período regencial brasileiro.
A madrugada em que a Cabanagem começou
O presidente da província do Grão-Pará, Bernardo Lobo de Sousa, foi morto a tiro enquanto subia as escadarias do palácio do governo, e o comandante das armas caiu no mesmo movimento de ataque. Em poucas horas, o grupo que tomou as ruas de Belém naquela madrugada já controlava os principais pontos de poder da capital da província — um golpe rápido, armado, contra as duas figuras que comandavam a força militar e civil do governo provincial.
Cabanagem, a revolta que tomou o governo
A Cabanagem foi a única revolta do Brasil imperial em que a população pobre chegou efetivamente a tomar o governo de uma província. Os cabanos eram indígenas tapuios, negros, mestiços e ribeirinhos que moravam nas cabanas de beira de rio — e foi dali que veio o nome do movimento. Não era um levante de elite disputando espaço com outra elite: era gente pobre da própria província ocupando, na marra, o lugar de quem antes mandava nela.
Malcher e as traições internas
Depois do assalto ao palácio, os rebeldes proclamaram presidente Félix Antônio Clemente Malcher, fazendeiro que até então estava preso. A aliança não durou: Malcher logo se voltou contra os antigos companheiros de revolta e foi deposto em fevereiro do mesmo ano, um roteiro de traições internas que se repetiria mais de uma vez ao longo dos anos seguintes, com diferentes lideranças assumindo e caindo do comando do movimento.
Esse padrão de aliança rápida seguida de ruptura ajuda a explicar por que a Cabanagem, mesmo tendo tomado o poder logo na primeira madrugada, não conseguiu construir um governo estável na província. Cada nova liderança precisava reconquistar o apoio das mesmas bases populares que tinham feito o assalto inicial, num ciclo de disputa interna que só terminaria com a chegada em força das tropas da Regência anos depois.
Cinco anos de guerra e um morticínio esquecido
A revolta durou até 1840 e foi esmagada com violência extrema pelas tropas da Regência. As estimativas mais citadas falam em algo entre 30 mil e 40 mil mortos, perto de um quinto da população da província naquele momento — números que fazem da Cabanagem o maior morticínio de uma revolta regencial em toda a história do país. Por muito tempo, o episódio ficou reduzido a uma nota de rodapé nos manuais escolares, tratado como desordem regional e não como projeto político organizado, uma leitura que a historiografia das últimas décadas vem desfazendo aos poucos.
Chamar de “desordem” um movimento que sustentou o controle de uma província inteira por cinco anos, com sucessivas trocas de liderança e resistência organizada às tropas da Regência, é uma simplificação que apaga o tamanho real do episódio. Tratar a Cabanagem apenas como confusão regional também ajuda a explicar por que o número de mortos — próximo de um quinto da população da província — demorou tanto para virar dado conhecido fora dos círculos de pesquisa especializados em história da Amazônia.
Não há lei federal que institua 7 de janeiro como data comemorativa da Cabanagem — a data oficial do calendário nacional para o dia é outra, o Dia da Liberdade de Cultos, ligado a um decreto de 1890, e já tem cobertura própria. Vale ainda o registro de uma divergência de fontes: parte dos almanaques marca o início da revolta em 6 de janeiro, mas a bibliografia específica sobre o tema e o registro do próprio assalto ao palácio situam o levante na madrugada de 7 de janeiro de 1835, data adotada aqui.
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