
Na madrugada de domingo, 25 de janeiro de 1835, cerca de 600 africanos escravizados e libertos saíram às ruas de Salvador armados para tomar a cidade. A Revolta dos Malês é a maior rebelião de escravizados urbanos da história do Brasil, e ainda assim segue quase desconhecida fora da Bahia.
Revolta dos Malês: quem eram os rebeldes
Eram chamados malês — do iorubá imalê, muçulmano —, africanos islamizados, em boa parte nagôs, que sabiam ler e escrever em árabe e usaram essa alfabetização para organizar o levante por bilhetes, sob a cobertura das aulas de Corão. A capacidade de organizar um movimento armado por escrito, numa língua que os senhores de escravos não liam, foi um dos fatores que permitiu reunir centenas de pessoas sem que a conspiração vazasse antes da hora prevista.
A data escolhida com cuidado
Os organizadores da Revolta dos Malês escolheram a data com cuidado: era o fim do Ramadã e véspera de Nossa Senhora da Guia, festa que tiraria muita gente da cidade e reduziria a vigilância nas ruas. Ainda assim, foram denunciados horas antes por duas pessoas ligadas ao próprio grupo, e a polícia já estava à espera quando o levante começou — o que mostra como o plano cuidadoso quase funcionou, mas dependia do sigilo de gente de dentro do movimento.
Escolher o fim do Ramadã como data de um levante armado mostra um planejamento que unia calendário religioso e cálculo estratégico: era o momento em que a comunidade de malês já estava reunida e mobilizada pelas próprias práticas de fé, o que facilitava a organização final sem levantar tanta suspeita entre quem observava de fora do grupo.
Uma madrugada de combate e semanas de repressão
O combate durou uma madrugada e terminou com cerca de 70 rebeldes mortos nas ruas de Salvador. Vieram depois julgamentos sumários, condenações à morte, açoites em praça pública e deportações para a África — uma repressão que não se limitou a apagar o levante, mas buscou punir de forma exemplar qualquer gesto parecido no futuro.
A dureza da resposta tinha um objetivo declarado: impedir que a alfabetização em árabe e a organização por bilhetes que os malês tinham usado servissem de modelo para outros grupos de escravizados em outras cidades. Deportar rebeldes para a África, em vez de apenas prendê-los ou executá-los todos, também funcionava como forma de afastar do país quem sabia ler e escrever numa língua que a maioria dos senhores de escravos não dominava.
O maior levante de escravizados do Brasil
Naquele ano, Salvador tinha algo como 27.500 pessoas escravizadas, cerca de 42% da população da cidade, e o susto que os malês deram ao Império atravessou o país inteiro: o medo de um “novo Haiti” produziu leis mais duras, restrição à entrada de africanos e vigilância sobre reuniões religiosas negras por décadas. Nenhuma outra revolta de escravizados urbanos do Brasil chegou perto dessa escala, e é por isso que a Revolta dos Malês costuma ser descrita como a maior rebelião de escravizados da história brasileira.
Não há lei federal que institua 25 de janeiro como data de memória da Revolta dos Malês. A norma que costuma ser citada em textos sobre o tema é a Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas — ela é de 9 de janeiro, não de 25, e não institui data comemorativa alguma; citá-la como criadora desta efeméride seria erro. Vale ainda registrar que parte dos almanaques marca o início do levante em 24 de janeiro, mas a bibliografia específica sobre o tema situa o levante na madrugada de 25 de janeiro de 1835, data adotada aqui.
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