
Em 1º de janeiro de 1502, uma expedição exploratória portuguesa entrou na baía de Guanabara — e é dali, segundo a tradição repetida em livro escolar, que vem a origem do nome Rio de Janeiro. A história costuma ser contada como certeza absoluta, mas até o comando daquela expedição é disputado pelos historiadores, e o nome indígena do lugar já existia muito antes de qualquer navegador europeu aparecer por ali.
Quem comandava a expedição que entrou na baía
Não há consenso sobre quem estava à frente da esquadra que avistou a baía de Guanabara naquele início de ano. Parte dos autores atribui o comando a Gaspar de Lemos, mas essa não é a única versão que circula na historiografia: também aparecem os nomes de Gonçalo Coelho, apontado por outra corrente como responsável pela expedição, e do florentino Américo Vespúcio, que teria seguido a bordo daquela mesma armada. A falta de acordo entre os autores é, em si, um dado relevante: mostra que o episódio fundador do nome de uma das cidades mais conhecidas do país não tem documentação tão sólida quanto os manuais escolares fazem parecer. Sem um comandante único e confirmado, também não há como tratar como fato fechado quem exatamente decidiu o nome que ficaria.
A origem do nome Rio de Janeiro, contada e contestada
A versão que se ensina nas escolas é direta: os navegantes teriam tomado a entrada da baía pela foz de um grande rio e, por isso, batizado o lugar de Rio de Janeiro — juntando o acidente geográfico que julgavam ver ao mês em que a esquadra chegou. É uma explicação fácil de lembrar, e por isso se espalhou por gerações de manuais escolares. Mas há uma ressalva que esses mesmos manuais costumam deixar de fora: o vocabulário náutico usado pelos portugueses no século XVI empregava a palavra “rio” com muita liberdade, inclusive para nomear enseadas e braços de mar que rio nenhum eram. Isso significa que a história do engano — acharam que era rio e não era — é contada como fato consumado, mas não é a única leitura possível do episódio. Pode ter sido, tanto quanto um erro de percepção, apenas o uso corrente da língua da época, sem confusão alguma por trás.
Guanabara, o nome que já existia
Antes de qualquer nome português, o lugar já tinha nome: Guanabara, palavra de origem tupi que os estudiosos leem de mais de um jeito. Uma leitura traduz o termo como “seio do mar”; outra o associa à forma arredondada da baía e à fartura de peixe que os tupinambás tiravam dali havia gerações, antes da chegada de qualquer europeu. As duas leituras convivem sem que uma cancele a outra, o que é comum em palavras de línguas indígenas registradas por escrita alheia, muitas vezes décadas depois do contato original. O fato relevante para quem estuda a história do lugar é que o nome indígena precede o português em uso — só não precede em fama, porque foi o nome trazido de fora que ficou gravado nos mapas e nos livros.
Meio século de distância entre o nome e a cidade
Um detalhe que costuma escapar de quem conta essa história é a distância no tempo entre o batismo do lugar e a fundação da cidade que herdaria o nome. A ocupação portuguesa só viria seis décadas depois daquele início de ano: a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi fundada em 1565, depois da expulsão dos franceses que haviam se instalado na região com o projeto da França Antártica. Ou seja, o nome nasceu de um mês do calendário e ficou solto por meio século antes de virar cidade de fato — sequência invertida do que normalmente se imagina, em que o lugar primeiro existe e só depois recebe nome.
Não existe lei federal que faça de 1º de janeiro uma data comemorativa por causa da chegada de 1502: o dia é feriado nacional por outro motivo, a Confraternização Universal, que já tem calendário próprio. O que sustenta a origem do nome Rio de Janeiro é só o registro histórico da expedição — e mesmo esse registro, como se viu, divide autores até hoje.
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