
Hilda Hilst morreu em Campinas em 4 de fevereiro de 2004, aos 73 anos, depois de uma cirurgia. Hilda Hilst só encontrou leitores em massa depois da própria morte, décadas depois de ter escrito a maior parte da obra que hoje é estudada em universidades.
Hilda Hilst e a loucura do pai na obra inteira
Nasceu em Jaú, no interior paulista, em 1930, filha de um fazendeiro, poeta e jornalista que foi diagnosticado com esquizofrenia quando ela ainda era criança — a loucura do pai atravessa a obra inteira que Hilda Hilst construiria décadas depois, um tema que volta e meia reaparece em versos, peças e prosa.
Crescer ao lado de um pai poeta e jornalista, mas também diagnosticado com uma doença mental grave, colocou cedo diante de Hilda Hilst duas heranças que pareciam contraditórias: a linguagem e a criação literária de um lado, o sofrimento psíquico do outro. Em vez de esconder essa tensão, ela a transformou em matéria de escrita ao longo de toda a carreira, revisitando o tema sob formas muito diferentes, da poesia mais hermética à prosa mais direta.
Da alta sociedade paulistana à Casa do Sol
Formou-se em direito no Largo São Francisco, conviveu com a alta sociedade paulistana e, em 1966, largou tudo e mudou-se para a Casa do Sol, na periferia de Campinas, casa que construiu em terreno da família e onde escreveu quase toda a obra cercada de dezenas de cachorros recolhidos da rua. A ruptura com o ambiente social em que tinha crescido é um dos pontos mais marcantes da biografia dela: trocar salão por casa isolada, cercada de cães, para escrever em paz.
A trilogia obscena que tentou, e não conseguiu, escandalizar
Publicou poesia, teatro e prosa: Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão; A Obscena Senhora D; Com os Meus Olhos de Cão; e a chamada trilogia obscena dos anos 1990, com que tentou, sem sucesso, escandalizar o mercado para finalmente vender livro. Mesmo o conteúdo mais explícito da trilogia não conseguiu o que ela buscava: mais leitores em vida, algo que só viria depois que Hilda Hilst já não estava mais lá para ver.
É uma ironia que atravessa boa parte da história literária: uma autora que passou por poesia densa, teatro experimental e prosa obscena, testando registros e públicos diferentes ao longo de décadas, sem conseguir romper a barreira da circulação restrita nem mesmo quando deliberadamente mirou o escândalo como estratégia comercial. O mercado que ela tentou provocar simplesmente não reagiu como ela esperava, e a obra seguiu circulando entre poucos leitores até o fim da vida.
Prêmios, admiração e circulação restrita
Ganhou o Prêmio Jabuti e o Prêmio Casa das Rosas, foi admirada por Caio Fernando Abreu e por Lygia Fagundes Telles e, mesmo assim, viveu como autora de circulação restrita, reclamando em entrevistas do silêncio da crítica ao redor do próprio trabalho. É um contraste incomum: reconhecimento de pares e de prêmio ao mesmo tempo em que faltava alcance de público maior.
Escrever para um público que só viria a existir depois da própria morte é um destino que poucos autores enfrentam com a consciência de que enfrentavam. Hilda Hilst reclamava do silêncio da crítica em vida, mas seguiu produzindo obra densa e experimental mesmo sem a resposta de leitores que buscava, numa aposta de longo prazo que só o tempo veio a confirmar como acertada.
A Casa do Sol funciona hoje como centro de estudos e residência de escritores, e a obra de Hilda Hilst só encontrou leitores em massa depois da morte — a reedição integral pela Companhia das Letras é dos anos 2010. É o tipo de autora que o calendário só lembra pela data do fim, e 4 de fevereiro é essa data.
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