Quatro unidades da rede pública estadual do Espírito Santo encerraram o ano letivo de 2024 com ações antirracistas nas escolas de Vila Velha, Cariacica, Viana e Guarapari. Cada uma seguiu um caminho próprio: um desfile temático com roda de capoeira, um projeto de letramento racial com turmas de 7º ano, uma mostra cultural aberta à comunidade e um painel interativo montado no formato de tabela periódica. Das atividades descritas, apenas duas tiveram data divulgada — 19 e 21 de novembro, terça e quinta-feira.
São iniciativas já realizadas, não um programa em andamento. O material divulgado registra o que cada escola fez e para por aí: não anuncia continuidade em 2025, não fixa meta para a rede, não informa verba, não nomeia coordenação central nem diz que as quatro sigam um mesmo plano. Quem procura uma política permanente com prazo e orçamento não encontra essa informação aqui — o que existe é o registro de quatro projetos escolares concluídos.
Quatro formatos diferentes de ações antirracistas nas escolas
A divulgação apresenta as unidades uma a uma, sem tabela, sem totais e sem comparação entre elas. Também não fecha a lista: ao introduzir a última escola, o texto usa a expressão em outra unidade de ensino, o que abre espaço para que existam outras iniciativas não relatadas. Ou seja, quatro é o número de escolas que o material descreve, e não um total que ele declare. Nada indica que sejam as únicas da rede a trabalhar o tema neste ano.
O guarda-chuva comum às quatro é a educação para as relações étnico-raciais, expressão usada nos documentos escolares para o trabalho pedagógico com a história e a cultura afro-brasileiras e africanas dentro do currículo — em disciplinas regulares, e não apenas em atividades comemorativas isoladas. Os quatro projetos descritos nasceram nas próprias escolas, conduzidos por professores de áreas diferentes.
Vila Velha: desfile, slam autoral e roda de capoeira
Na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Silvio Rocio, em Vila Velha, a atividade do dia 19 saiu do Projeto Integrador de Ciências Humanas Sankofa: a África que te habita e foi dividida em dois blocos.
No primeiro, estudantes do Ensino Fundamental e do Ensino Médio produziram um desfile temático sobre a marca deixada pelas culturas afrodiaspóricas — as que se formaram a partir da diáspora africana — no país, com atenção ao que elas produziram no Brasil e no Espírito Santo. Em seguida, uma estudante da 2ª série do Ensino Médio apresentou um slam de autoria própria sobre identidade e pertencimento étnico-racial. Slam é o nome dado à poesia falada: o texto é escrito pelo próprio autor e apresentado em voz alta, formato que circula entre jovens em saraus e disputas de poesia.
O segundo bloco ficou com o grupo de capoeira São Salvador, comandado pelo Mestre Buiu, em parceria com o Centro de Referência da Juventude (CRJ) de São Torquato. A divulgação não informa quantos estudantes participaram, nem explica o que significa a palavra Sankofa, que batiza o projeto.
O evento fecha com chave de ouro um ano letivo de muita aprendizagem, desconstrução de preconceitos enraizados e, simultaneamente, construção de um senso crítico coletivo entre nossos estudantes, capaz de multiplicar uma cultura antirracista em seus contextos sociais
A avaliação é do professor de Sociologia Williams Moreira Barros Luna, responsável pelo projeto.
Cariacica: letramento racial com as turmas de 7º ano
No Centro Estadual de Ensino Fundamental e Médio em Tempo Integral (CEEFMTI) Professor José Leão Nunes, em Cariacica, o trabalho foi dirigido às turmas dos 7º anos do Ensino Fundamental e organizado como um projeto de letramento racial. O termo aparece na divulgação sem explicação; o que o material efetivamente descreve é uma sequência de atividades encadeadas:
- leitura de textos sobre o tema;
- exibição do filme Pantera Negra, seguida de análise da obra e dos personagens;
- discussão em torno da ideia Ubuntu: Eu sou porque nós somos, cuja própria formulação já traz a tradução usada em sala;
- construção de um painel com personalidades negras, montado como resposta à pergunta Quem te inspira no enfrentamento ao racismo?
A relação é apresentada como aquilo com que as atividades contaram, sem afirmar que sejam todas — e não há informação sobre quantas turmas ou quantos estudantes foram alcançados.
No combate ao racismo é importante reforçar ações de empoderamento e valorização de referências inspiradoras na escola e fora dela. Problematizar as violências e violações contra a população afro-brasileira é importante, mas a discussão não deve se encerrar nisso. O fortalecimento de ações de valorização passa pela inspiração e afirmação de lugares e pessoas de potência no enfrentamento às diversas formas de racismo que se manifestam no cotidiano
A observação é da professora Jamila de Souza Auteiro. O material não informa a disciplina que ela leciona nem a qual das unidades está vinculada — a fala aparece logo depois do relato de Cariacica, sem que esse vínculo seja declarado.
Viana: do debate em sala à mostra aberta à comunidade
Na Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) Augusto Ruschi, em Viana, o projeto Despertar Afro foi montado para levar aos alunos as origens africanas e o que elas deixaram na sociedade brasileira. Pela descrição divulgada, as atividades mexeram com estereótipos, com diversidade cultural e étnica e abriram debate sobre racismo e direitos civis.
O ponto de chegada foi uma Mostra Cultural para a comunidade escolar, realizada na quinta-feira, dia 21, em que os próprios alunos apresentaram o que haviam estudado. É a única das quatro iniciativas em que a divulgação registra abertura formal a quem está fora da sala de aula.
Achei o projeto muito interessante, principalmente pelas apresentações, discursos e brincadeiras. É muito importante ter algo nas escolas que fale sobre a cultura afro, pois isso nos ajuda a entender melhor o nosso valor. Fiquei muito feliz ao ver a estrutura e o espaço que foram preparados com tanto cuidado por professores e alunos
O relato é de um estudante da escola, ouvido na mostra.
Guarapari: uma tabela periódica de personalidades negras
Na Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) Guarapari, no município de Guarapari, os alunos criaram um painel interativo que imita a tabela periódica da Química. No lugar dos elementos entraram personalidades negras que marcaram a história, e cada quadro reúne informações sobre a figura pública mais um código de leitura por celular, o QR Code, que abre um painel digital. O resultado foi apresentado à comunidade escolar em uma tela interativa.
A divulgação cita entre os homenageados Benjamin Carson, Conceição Evaristo, Pelé e Tim Maia, e diz que as áreas contempladas vão de ciências, tecnologia e literatura a esportes, cinema e música. Nos dois casos a formulação é de recorte: são exemplos, e não a relação fechada de quem entrou no painel nem de todas as áreas cobertas.
Para o professor de Química João Vitor de Assis, o projeto trabalhou pertencimento cultural ao mesmo tempo em que exercitou análise crítica, trabalho em equipe e comunicação. Essa avaliação chega em discurso indireto: o material não traz uma declaração literal do professor. A data da atividade também não foi divulgada — assim como a de Cariacica.
O que a divulgação não informa
O texto oficial descreve os projetos pelo lado da intenção pedagógica e deixa de fora quase tudo o que permitiria medir alcance ou cobrar continuidade:
- quantos estudantes participaram em cada uma das quatro escolas;
- as datas das atividades de Cariacica e de Guarapari;
- se as ações se repetem em 2025 e se viram parte fixa do planejamento das escolas;
- se houve formação específica dos professores para conduzir o tema, e quem a ofereceu;
- se existe recurso financeiro envolvido, e de qual origem;
- se as escolas contam com algum rito para registrar e responder a casos concretos de racismo dentro da unidade;
- quantas outras unidades da rede desenvolveram trabalho semelhante no mesmo período.
Vale registrar também que se trata de material de divulgação oficial, com um lado só: não há avaliação externa dos projetos, nem manifestação de famílias, de conselhos escolares ou de entidades do movimento negro. Ausência de crítica em texto institucional não equivale a consenso sobre os resultados.
O que veio depois desses projetos
As iniciativas descritas aqui são de novembro de 2024 e nasceram dentro de cada escola. Em abril do ano seguinte, já em 2025, a rede estadual passou a tratar o assunto por outro caminho: um edital da Sedu para selecionar práticas antirracistas desenvolvidas nas escolas, etapa posterior a estes projetos e voltada a reunir experiências em publicação orientadora.
Um ano depois, em novembro de 2025, apareceu um formato diferente do que se lê nestas quatro unidades: em vez de projeto pedagógico com prazo para acabar, uma escola de Jaguaré formalizou um protocolo antirracista e criou um comitê permanente para acompanhá-lo. A distinção é útil para quem lê os dois textos: projeto trabalha conteúdo em sala; protocolo estabelece o que a escola faz quando um caso de racismo acontece. As quatro unidades desta reportagem aparecem apenas no primeiro grupo — o material não menciona protocolo nem comitê em nenhuma delas.
Por que os nomes dos estudantes não aparecem nesta reportagem
A divulgação oficial identifica pelo nome dois alunos da educação básica: a autora do slam apresentado em Vila Velha e o estudante ouvido na mostra de Viana. Aqui eles são citados pela função — uma estudante da 2ª série do Ensino Médio, um estudante da escola —, e a fala vai íntegra, sem cortes por dentro.
A escolha é editorial e vale para todo o portal. Nome de estudante somado a escola, série e município aponta uma pessoa dentro de uma turma pequena, e esse registro fica indexado em buscadores por tempo indeterminado, muito além do ano letivo. Nada disso acrescenta informação a quem lê: o que importa é o que foi feito e o que foi dito, e as duas coisas continuam inteiras no texto. Os nomes de professores e do mestre de capoeira permanecem porque eles respondem publicamente pelas iniciativas, na condição de profissionais.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!

